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30 anos de El Rock: Mais do que um Bar, uma Família

Luís Lisboa
Opinião \ sábado, março 07, 2026
© Direitos reservados
No "31" da Praça de S. Tiago, o El Rock celebra 30 anos. O que nasceu como um projeto de resistência em 1996 é hoje o coração da movida e a maior festa de rock indoor do país. Vida longa à família!

​Diz-se que o rock and roll é a arte da persistência, e, se há lugar que personifica essa teimosia saudável, é o El Rock Bar. No coração de Guimarães, algures pelo início de março de 1996, dois jovens amigos decidiram não deixar cair um sonho, um nome e um lugar que acreditavam que tinha ainda muito para dar. Contudo, não tinham manual de instruções, aliás, não sabiam sequer tirar um café, mas, tinham o curso mais importante de todos: o de serem bons clientes.

​Na verdade, o El Rock não nasceu como um sucesso instantâneo. Pelo contrário: como o seu próprio número de porta já vaticinava — o 31 — nasceu como um projeto de pura resistência. Em meados da década de 90, a cultura alternativa e o rock eram olhados de lado, quase como uma afronta ou um perigo iminente para os "bons costumes". Mas, lá dentro, o volume nunca baixou.

​Com o Tó Lobo e o seu sócio, o Luís (o nosso Russo, que esteve no projeto até 2003), o espaço foi cavando o seu lugar num Centro Histórico que, naquela altura, era uma pálida imagem do que conhecemos hoje. O coração da cidade era um cenário de edifícios devolutos e problemas de toxicodependência, um ambiente que, em rigor, estava longe de ser recomendável.

​Foi nesse contexto difícil que o El Rock se afirmou. À boleia da reabilitação da zona, o bar provou que o rock não era um problema social, era uma identidade, um porto de abrigo e uma forma corajosa de devolver a vida à Praça de S. Tiago.

​O que torna o El Rock um caso raro, daqueles que já não se encontram em qualquer esquina, é uma combinação única de contexto, momento e identidade, à qual se juntam a sua geometria e a sua natureza multigeracional. Apesar de ser um espaço reduzido, o El Rock encaixa que nem uma luva na movida vimaranense, funcionando como um dos vértices do triângulo que une a Praça da Oliveira, a Rua de Santa Maria e a Praça de S. Tiago.

​Mais do que um bar de paredes fechadas, o conceito de pedir a bebida lá dentro para a consumir na esplanada ou na rua criou um ambiente de convívio contínuo entre as praças. O bar derramou-se para a cidade e a cidade adotou-o como seu.

​E, depois, há o fenómeno que mais nos fascina hoje em dia: ver os pais, que ali se apaixonaram nos anos 90 ao som de guitarras elétricas, a partilharem agora o balcão com os filhos. Os copos continuam a ser servidos com a mesma alma, e os miúdos de hoje brindam com a mesma energia com que os pais o faziam há trinta anos. Ali, nunca houve meros clientes, sempre houve rostos conhecidos, histórias que se cruzam e uma amizade que transforma aquele pequeno espaço numa extensão da nossa própria sala de estar.

​Mas, o El Rock nunca se limitou a ser apenas um sítio onde se bebe uns copos. Tornou-se o motor da cena regional. A partir de 2012, essa força ganhou uma nova escala quando o aniversário passou a ser assinalado no São Mamede CAE, transformando-se na maior festa de rock indoor do país, atraindo gente de toda a região e de Portugal.

​Foi neste contexto que nasceram os RockFriends Project, uma banda coletiva onde vocalistas de diferentes bandas de Guimarães se juntam para promover a prata da casa. Essa missão de construir um palco para a cidade materializou-se também na compilação "El Rock: guimarães*bands", um CD profissional com 18 bandas locais, e nas t-shirts que se tornaram fardas de orgulho vimaranense. A festa mantém este conceito único: uma produção irreverente e provocadora, com performances e strip, que culmina sempre no icónico DJ Set da equipa da casa.

​Hoje, o El Rock é um clássico absoluto que se mantém ligado ao presente sem nunca esquecer as raízes. Olhamos para o Tó Lobo, para o Rato, para a Ana, e para todos os que por ali passaram, e vemos muito mais do que uma equipa: vemos os guardiões de um espírito que se recusa a envelhecer.

​Parabéns, Tó Lobo e El Rock. Por mais 30 anos de shots memoráveis e de conversas que mudam o mundo. Um brinde também a todos nós, que partilhamos e construímos esta história em cada um dos últimos 30 anos, e por nos fazerem sentir que esta família é, acima de tudo, nossa.

 

​Vida longa ao El Rock e a todos nós!

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