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A Democracia no labirinto: entre a instituição e o incêndio

Luís Lisboa
Opinião \ terça-feira, janeiro 20, 2026
© Direitos reservados
O populismo é um sintoma, não a doença. Enquanto a habitação for um luxo e a saúde uma lotaria, haverá sempre quem queira queimar o sistema.

​A poeira da primeira volta das Presidenciais de 2026 ainda não assentou, mas o cenário que emerge é de uma clareza desconcertante. Vivemos uma campanha onde o essencial foi varrido para debaixo do tapete do TikTok. Falou-se pouco de magistério de influência ou de geoestratégia, e muito, demasiado, através de desinformação e ataques ad hominem. Portugal parece ter finalmente importado, sem filtros, a política espetáculo, onde o conteúdo foi devorado pelo algoritmo e a desinformação se tornou a principal arma de arremesso. 

​Neste cenário, António José Seguro operou o que muitos julgavam impossível. Com 31,11% dos votos, obteve uma vitória pessoal que é também um balão de oxigénio para o Partido Socialista. Mas esta vitória não é apenas mérito próprio, é o resultado de um país que, perante o abismo, procurou um porto de abrigo conhecido. Por outro lado, o descalabro de Marques Mendes, com 11,30%, é histórico: nunca um candidato apoiado pelo Governo tinha tombado de forma tão estrondosa. É o preço da falta de coragem em marcar uma posição clara na defesa intransigente dos valores democráticos.

​Pelo caminho ficou Cotrim de Figueiredo. Entre sondagens que prometiam o céu e uma realidade que o deixou em terceiro lugar com 16%, a sua campanha implodiu sob o peso de ambiguidades democráticas e polémicas de assédio. A reter: Belém não admite sombras desta natureza.

​Mas o elefante na sala chama-se André Ventura. Com 23,52%, ele conseguiu o que precisava: o adversário ideal para continuar a polarizar. Até porque Ventura não quer ser o Presidente que guarda a Constituição, ele quer ser aquele que a rasga. Concentrando em si 82% dos casos de desinformação destas eleições, Ventura não está a debater o país, está a criar uma realidade alternativa onde o ódio e a divisão são as únicas moedas de troca. A sua estratégia é a da canibalização: primeiro o CDS e agora, previsivelmente, responsabilizará o PSD e a Iniciativa Liberal pela sua derrota.

​Estamos perante uma aritmética perigosa. As novas direitas radicais, a xenófoba e a financeira, somaram quase 40% dos votos. E, por outro lado, à esquerda de Seguro, o deserto: apenas 4,38%, fruto de um voto útil que secou as candidaturas de Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto.

​Assim, quarenta anos depois, voltamos a ter uma segunda volta, agora, entre um democrata de matriz institucional e um populista que cavalga a onda anti-sistema. O perigo é cairmos na armadilha do maniqueísmo fácil. Se nos limitarmos a apontar o dedo, apenas daremos mais lenha à narrativa de que eles estão todos contra nós.

​A trumpização de Portugal não se trava apenas com discursos sobre a liberdade, trava-se resolvendo a vida das pessoas. O populismo é um sintoma, não a doença. Enquanto a habitação for um luxo, a saúde uma lotaria e a educação uma incerteza, haverá sempre quem se sinta tentado a votar em quem promete queimar o sistema.

​Em suma, no dia 8 de fevereiro, Portugal decidirá se quer um construtor de pontes ou um mestre do incêndio. Até lá, resta saber se os democratas terão a humildade de perceber que, para vencer o ódio, é preciso primeiro resolver as razões do descontentamento.

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