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A gamela

Eduardo Fontão
Opinião \ quinta-feira, abril 21, 2022
© Direitos reservados
Na maioria dos países desenvolvidos, há uma crescente tendência de descentralização dos ministérios, das direções-gerais, numa lógica de combate à corrupção (...) Portugal vai no sentido contrário.

Há uns 10 ou 15 anos, fui presenteado, numa troca natalícia, com o romance de José Saramago, “A Caverna”. Em traços muito gerais, o livro narra a história do oleiro Cipriano, que vivencia a expansão da industrialização e a substituição do trabalho artesanal pelo industrial, na qual vê o seu ofício tornar-se desnecessário no “novo mundo” que se configura, o que o obriga a ir viver para o “centro”, onde o seu genro trabalha como guarda.

O “centro” é uma espécie de superfície comercial com um condomínio de luxo acoplado, que inclui residências para os seus trabalhadores e todas as comodidades necessárias para a vida quotidiana dos seus habitantes e representa uma metáfora da forma como vivemos aprisionados na nossa microrrealidade e alheados do que extravasa as suas fronteiras, no modelo de sociedade contemporâneo

A obra é inspirada na Alegoria da Caverna, uma homenagem de Platão a Sócrates, seu mentor, que foi condenado à morte, por pensar um pouco “fora da caixa”. Nesta, Platão descreve a vida de alguns homens, que desde a infância vivem numa caverna acorrentados. Virados de costas para a entrada e iluminados por uma fogueira, apenas veem sombras projetadas na parede, e julgam que essas sombras são tudo o que existe no mundo.

Certo dia, um dos prisioneiros liberta-se das correntes, e consegue sair da caverna. Inicialmente pondera voltar ao conforto da prisão à qual já estava habituado, mas consegue gradualmente adaptar-se à vida no mundo exterior e a admirá-lo. Ainda pensa em regressar à caverna para libertar os outros e descrever-lhes o que vivenciou, mas desiste com receio que estes, habituados à escuridão, não acreditassem no
 eu relato e o matassem.

Admito que esta foi a minha primeira incursão, e última, na obra literária do nosso único escritor premiado
com o Nobel, e nunca mais dela me recordei até conhecer a composição do XXIII governo: Que melhor analogia, para um governo de linhagem, circunscrito praticamente à corte da capital, constituído por 17 ministros dos quais 14 supostamente nunca tiveram uma experiência de trabalho no setor privado, do que a alegoria de Platão?

As analogias não ficam por aqui: foi anunciado que todos os ministérios com relevância para a programação, execução e controlo do PRR irão ocupar as instalações da atual sede da Caixa Geral de Depósitos. Para quem não sabe, trata-se um edifício faraónico, com 15 pisos, dotado de diversas áreas sociais, como lojas, cantina, ginásio, campos de squash e de futebol e com acesso direto à Culturgest. O “Centro”, descrito n’ “A Caverna” de José Saramago, no seu máximo esplendor.

Na maioria dos países desenvolvidos, há uma crescente tendência de descentralização dos ministérios, das direções-gerais, dos reguladores, dos tribunais centrais, numa lógica de combate à corrupção, habitualmente potenciada pela “coabitação” ou pelo ambiente de proximidade entre os diferentes agentes económicos e políticos. Portugal vai no sentido contrário e junta tudo no mesmo sítio. E bem!

Onde já se viu, ao preço atual dos combustíveis, um motorista ter de se deslocar de uma qualquer capital de distrito à capital do reino para ir buscar um preguinho ou uns croquetes do Gambrinus para o senhor ministro?  E como espaço não falta, poderiam ainda ser instaladas outras valências muito úteis:

- Um tribunal especialmente criado para as questões do PRR;
- Um museu, onde poderia ser exposto, entre outros objetos importantes ligados ao trabalho governamental, o guardanapo onde o ministro da economia delineou a estratégia do PRR e o futuro de Portugal nos próximos anos, no célebre almoço com o primeiro ministro.

Quanto ao não menos importante naming do edifício, tenho uma sugestão: A GAMELA.

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