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O desporto e a economia (continuação)

Francisco Oliveira
Desporto \ sábado, dezembro 09, 2023
© Direitos reservados
Não estará o futebol, e, talvez, por contágio, o desporto em geral, a alimentar uma bolha que, a prazo, rebentará, ditando o colapso dos clubes como os conhecemos?

O futebol global, este comércio desportivo e que sempre terá de ser lucrativo, é fautor de outros fenómenos económico-financeiros e fiscais. Destacamos as fraudes fiscais e outros esquemas de fuga e lavagem de dinheiros, e sempre que alguns se servem do desporto, do futebol e outras modalidades, para estes propósitos fica completamente desvirtuado o jogo, quer como desporto, quer como atividade física. Como caso paradigmático no futebol português remontamos ao ano desportivo 2017-2018, quando os ditos três grandes foram alvo de investigação de pelo Ministério Público (MP), articulado com Autoridade Tributária (AT), por suspeita de fraude fiscal. Em rigor foram seis os clubes de futebol (os três grandes, o Vitória Sport Clube, Estoril e Marítimo) a quem o DCIAP instaurou processos crime por dupla representação de intermediários no contrato de jogadores (15 jogadores, sendo 9 dos três grandes). Segundo a AT uma prática que é usada pelos clubes, agentes e jogadores para evitar impostos e envolvendo prémios de assinaturas. Hoje os clubes, os agentes, os treinadores e os jogadores, qual sintoma de algo que não está bem no reino da bola, estão cercados por uma órbita de advogados e conselheiros financeiros. Porque será?!

Um agente como Jorge Mendes, um treinador com José Mourinho, ou o melhor jogador de sempre do futebol português, e segundo a minha opinião do mundo, em 2016 já tinham sido suspeitos de recorrerem a paraísos fiscais, como muitas outras estrelas do futebol e do desporto em geral, para pagarem menos impostos, sobretudo em relação aos direitos de imagem. Eu não gosto, nem quero confundir, o artista, o escritor, o pintor, o filósofo, …, o futebolista, com a sua moral ou ética. Contudo, não é admissível que como profissionais se comportem como foras-da-lei e sem responsabilidade social. Não podemos olvidar que o jogo, como desporto e/ou atividade física, está ao serviço da polis / civitatis / cidade e não ao serviço exclusivo de um indivíduo que se encerra na mesquinhez da sua existência egotista. Ou, então, técnicos e atletas pagos por contratos de prestação de serviços simulados e com emissão de faturas que não correspondem a qualquer operação real. Evitam-se retenções na fonte de IRS e das contribuições para a Segurança Social relativas a salários e prémios. Sem dúvida, estes, e muitos outros, é crimes de fraude fiscal qualificado, mesmo configurando crime organizado. Cada vez mais os negócios envolvem vários agentes em países diferentes, e cada vez mais interesses poderosos se ligam a estes negócios (hoje o capital financeiro dos ultramilionários russos e árabes), o que torna mais moroso a cooperação internacional no combate a este fenómeno deturpador do jogo. Uma economia, como dizia o Papa Francisco, que mata o jogo.

A seguinte modalidade de esquemas financeiros, e muito perigosos, pois são geridos por especuladores do mais feroz capitalismo selvagem, como por exemplo, a britânica XXII ou a IBB alemã. E, para precipitar isto, o famoso fair play financeiro da UEFA, como se tratasse de uma espécie de liberdade condicional. Se a norma tem vantagens mais que válidas, também sabemos que a UEFA não é um menino de coro neste quadro da economia e das finanças do futebol europeu. Ora, no futebol português, e sem exceção, todos os clubes têm problemas muito sérios de tesouraria (embora alguns sejam clarissimamente resguardados pelo sistema dos «ditos» três grandes). Não estará o futebol, e, talvez, por contágio, o desporto em geral, a alimentar uma bolha que, a prazo, rebentará, ditando o colapso dos clubes como os conhecemos? Os juros destes gestores financeiros (de nacionalidades diversas), que fazem fortunas no negócio futebol, com empréstimos a juros loucos, de 8% a 13%, são um sério risco para a sustentabilidade e equidade do desporto. Não só financeiro, mas do jogo como sempre foi entendido. As receitas antecipadas por estes agentes custarão, num futuro mais próximo que longínquo, valores insuportáveis para os clubes. Má gestão? Sim! Perda de noção da realidade? Certamente! O que temo é que esta deriva em que caiu o futebol, ou mesmo o desporto em geral, ponha em sério perigo os valores de sempre, desde a Grécia Antiga, do jogo, ou seja do desporto e da atividade física. Mas claro, enquanto os grandes clubes europeus (e os nossos grandes, pequenos na Europa) continuarem a abrir os cordões à bolsa para reforçarem as suas equipas com transações ultramilionárias, o negócio dos especuladores que financiam esta loucura está de vento em popa.

Continua…

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