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A cidade dos alcoólicos

Amaro das Neves
Opinião \ quarta-feira, janeiro 31, 2024
© Direitos reservados
Vamos percebendo que nos afastamos da cidade idealizada por Fernando Távora. As praças icónicas, que ele devolveu, foram novamente ocupadas pelo aço — não dos automóveis, mas das esplanadas.

As memórias são como as cerejas: funcionam por associação, entrelaçando-se umas nas outras. Pela forma como se associam, permitem o reconhecimento de padrões com que se tecem as narrativas de interpretação do acontecido e a perceção da realidade presente. Quando percorro as ruas que me viram crescer, ativam-se os mecanismos da memória, que é feitas de muitos fios, nem todos convergentes.

Uma destas noites, ao percorrer as ruas da velha Guimarães, dei comigo a evocar um texto que escrevi para O Povo de Guimarães, ainda no tempo da máquina de escrever, não muito distante daqueles dias em que as galinhas ainda tinham dentes, com um título que se ajustava à urbe que agora contemplava: “A cidade dos alcoólicos”.

Procurei o tal texto. Para verificar, mais uma vez, que, tal como o sabor das cerejas, as memórias nem sempre correspondem ao que esperamos — o título do texto era, afinal, “A sociedade dos alcoólicos”. Nele tentava retratar alguns aspetos da vida quotidiana em Guimarães entre os séculos XV e XVII. Entre eles, a alimentação:

Os homens dos fins da Idade Média comiam pouco e mal. Mas no beber não eram pecos. A sua alimentação baseava-se no pão, nas papas de farinha, nos caldos, no pescado seco, no vinho. E, se muitas vezes faltava o pão, ao ponto de se assaltarem as tulhas dos rendeiros do rei, se o peixe rareava e se até as couves para o caldo eram falheiras, o vinho, esse, nunca faltava e era a preços altamente convidativos.

Com base na análise dos registos dos preços a que, à época, se vendiam os géneros em Guimarães, percebe-se que, para beber um litro de vinho, se gastava metade do que custava um quilo de pão ou que um litro de azeite custava dez vezes mais. Mas, o que mais chamava a atenção, eram as cerca de 60 tabernas e outros locais de venda e consumo de vinho em atividade dentro das muralhas de Guimarães no início do século XVII. Uma taberna por cada 50 homens , mulheres e crianças que muravam no burgo.

Olhando em volta, percebe-se que, nestas primeiras décadas do século XXI, Guimarães, parece caminhar, às arrecuas, para o que foi no final da Idade Média. O Centro Histórico está, literalmente, tomado pelas novas tabernas e estabelecimentos similares. A cidade Património Mundial ameaça deixar de ser um lugar onde se quer viver, para se tornar no sítio onde se vai para beber um copo. Ou vários.

Ao contrário do saco das cerejas, o arquivo das memórias não tem fundo. Revisito uma reportagem José Casimiro Ribeiro publicou, também no PG, naqueles dias do início da década de 1980, cujo título — “Devolver Guimarães aos vimaranenses” — resumia o programa de intervenção urbanística que seria posto em prática nas décadas que se seguiram. Era o relato da apresentação pública, por Fernando Távora e Matos Ferreira, do Plano Geral de Urbanização de Guimarães. Vinha ilustrado com uma fotografia de uma praça vimaranense ocupada por automóveis, com uma legenda lapidar: “O aço invadiu as praças”.

Por aqueles dias, a aspiração dos urbanistas era retirar os automóveis do Centro Histórico, devolvendo-o à fruição pública. A requalificação do Centro Histórico tinha como ambição maior a requalificação de um modo de vida.

Com o tempo, vamos percebendo que nos afastamos da cidade idealizada por Fernando Távora. As praças icónicas, que ele devolveu aos vimaranenses, foram novamente ocupadas pelo aço — agora já não dos automóveis, mas do mobiliário das esplanadas que ganham cada vez mais espaço e descaracterizam as nossas praças.

“É a economia, estúpido”, haverá quem repita, citando o marqueteiro de Bill Clinton. Será, mas é também a vida da nossa cidade que se vai esboroando, para lá da economia.

E dou comigo a pensar se, afinal, vou continuar a defender a pedonalização e a redução da circulação de automóveis nas ruas da cidade. Se for para o espaço público ser tomado por mais esplanadas, substituindo os automóveis e o comércio pela indústria de comes e bebes, se calhar é melhor deixar estar como está.

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