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A tática do pontapé na lata

José Cunha
Opinião \ quarta-feira, janeiro 03, 2024
© Direitos reservados
De alguma forma, todos nós vamos dando “pontapés na lata”, e vai sendo tempo de cada um assumir a sua responsabilidade na difícil, mas imprescindível tarefa de fazer as pazes com a Natureza.
“Não podemos continuar a pontapear a lata pela estrada fora. Estamos sem estrada e quase sem tempo.”

Estas são palavras do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas proferidas na COP28 realizada no Dubai. Nesse discurso António Guterres enfatizou a urgência de ações efetivas no combate às alterações climáticas, salientando que um plano sem meios claros de implementação é como “um carro sem rodas”.

A expressão idiomática por ele utilizada (Kick the can down the road), - que tem a sua correspondente na língua portuguesa no “empurrar com a barriga”-, reflete bem o adiamento sistemático das medidas necessárias ao convívio harmonioso do Homem com a Natureza que poderão impedir o desastre anunciado.

De facto, apesar dos alertas da comunidade científica para os cenários futuros desastrosos e incontroláveis (que no entender de Soromenho-Marques estão a ser forjados pela “combinação tóxica do egoísmo, ignorância, arrogância e irresponsabilidade das elites dominantes”), existe um “pontapear na lata” que nos mantém muito distantes dos objetivos traçados no Acordo de Paris.

Essa tática de “pontapé na lata” não se manifesta exclusivamente pelo adiamento objetivo de uma determinada decisão, sendo muitas das vezes encoberta pela técnica do tal “carro sem rodas” (expressão que vou rebatizar por “carro sem motor”, por se adequar mais ao objetivo de máxima aparência mas sem operacionalidade). A técnica consiste na elaboração de estratégias e planos - a carroçaria brilhante e imaculada que se exibe aos cidadãos eleitores no “stand” da comunicação social – mas que no entanto se revelam de eficácia nula ou reduzida por falta de condições básicas de implementação – o motor.

Como bons adeptos e praticantes de futebol que somos, em Portugal temos jogadores exímios e treinadores catedráticos na arte de “pontapear a lata”. São exemplos de grandes “pontapés” o sucessivo adiamento da data limite para a adaptação dos Planos Diretores Municipais à Lei de Bases das Politicas dos Solos, ou o adiamento de quase uma década da publicação da denominada “Lei ProSolos” para a prevenção da contaminação e remediação dos solos.

Mas não são apenas estes adiamentos diretos que fazem parte do currículo da gloriosa seleção nacional de “pontapeadores na lata”. Também temos “pontapés” com recurso ao “carro sem motor”, de que a Lei de Bases do Clima será o melhor exemplo. Esta Lei, com dois anos e que logo no seu início estabelece que “é reconhecida a situação de emergência climática”, não teve até à data qualquer efeito prático por falta de regulamentação e implementação de medidas da responsabilidade do estado. Em dois anos quase nada foi feito. Agora imaginem se não houvesse emergência!

Em Guimarães pontapeia-se a lata com o bairrismo que nos caracteriza. Somos únicos e pioneiros a “pontapear na lata” e temos “carros sem motor” de excelência. Um exemplo para a Europa e para o Mundo.

Ironia à parte, a mensagem de ano novo que pretendo deixar aqui é de que de alguma forma TODOS nós vamos dando “pontapés na lata”, e que vai sendo tempo de CADA UM assumir a sua responsabilidade na difícil mas imprescindível tarefa de fazer as pazes com a Natureza.

Um feliz 2024.

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