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Do Holocausto ao Tarrafal: As lições que a Democracia não pode esquecer

Luís Lisboa
Opinião \ quarta-feira, janeiro 28, 2026
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Do Holocausto ao Tarrafal, a lição é clara: a democracia não se mantém sozinha. Exige vigilância, responsabilidade e a coragem de contrariar discursos que procuram simplificar o mundo através do ódio

Assinalou-se esta terça-feira o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, ou Shoá, instituído pelas Nações Unidas para recordar a libertação de Auschwitz-Birkenau, a 27 de janeiro de 1945. A abertura dos portões daquele campo revelou ao mundo a dimensão industrializada do genocídio nazi, que procurou eliminar não apenas vidas, mas culturas inteiras e a própria noção de humanidade partilhada.

O Holocausto vitimou mais de seis milhões de pessoas, não só judeus, mas também centenas de milhares de pessoas romani, pessoas com deficiência, prisioneiros políticos, opositores de consciência, homossexuais, testemunhas de Jeová e muitos outros que o regime classificou como “indesejáveis”. Como escreveu Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, “aconteceu, portanto pode voltar a acontecer”. Esta frase, tantas vezes citada, permanece um aviso urgente.

Recordar a Shoá é compreender que os regimes totalitários raramente se impõem pela força imediata. Muitas vezes chegam ao poder através de processos democráticos, explorando crises económicas, medos sociais e divisões internas. A normalização do discurso de ódio, a desinformação sistemática e a criação de inimigos internos são sempre sinais de alarme. Hannah Arendt alertou que “o mal pode tornar-se banal quando a sociedade abdica de pensar”, e é precisamente na abdicação do pensamento crítico, e no silenciamento de quem ousa defender e partilhar ideias humanistas, que germinam as sementes da desumanização.

Portugal não viveu o Holocausto, mas conhece bem as consequências da ascensão de ideologias autoritárias. Durante o Estado Novo, milhares de opositores foram perseguidos, presos e torturados. O Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, criado em 1936, ficou conhecido como o “Campo da Morte Lenta”. Ali morreram antifascistas portugueses e, mais tarde, nacionalistas africanos que lutavam pela independência. O Tarrafal pode não ter tido a escala dos campos nazis, mas partilhava com eles a lógica de repressão, violência e destruição física e moral dos prisioneiros. Evocá-lo neste dia é reconhecer que a ameaça autoritária não é uma abstração distante, mas uma realidade que também marcou a nossa história comum.

Do Holocausto ao Tarrafal, a lição é clara: a democracia não se mantém sozinha. Exige vigilância, responsabilidade e a coragem de contrariar discursos que procuram simplificar o mundo através do ódio. O passado não se repete de forma idêntica, mas os mecanismos que conduzem à violência são surpreendentemente constantes. Começam com palavras, com a divisão entre “nós e eles”, com a normalização da intolerância. Crescem quando a sociedade se habitua ao intolerável.

Neste 27 de janeiro, recordar Auschwitz e o Tarrafal é recordar o que a humanidade pode perder quando abdica da empatia e da razão. Guardar e transmitir a memória é um compromisso com o futuro. Se esquecermos, arriscamos a repetir os mesmos erros, ainda que com novas roupagens.

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