E se fosse em Guimarães?
Temos lido, desde há um bom par de anos, que é fundamental combater as alterações climáticas. Lemos na diagonal e continuamos, de coluna esticada, na vertical, a manter rotinas do costume, sem olharmos para o horizonte com a seriedade que o tema requer.
Não interessa, agora, a cor partidária! Hoje, os governos, de telemóvel em punho e unhas roídas em vídeos, estão mais preocupados com o fenómeno da imagem e de garantir votos para renovar a eleição, em vez de concentrarem atenções nos fenómenos extremos que a natureza vai enviando, cada vez com mais frequência.
Estamos já doutorados em teorias imensas. Sobra-nos literacia em conferências sobre ambiente. Faltam-nos soluções no terreno! Há mais reação do que ação! E, nessa altura, mandam-se às malvas as teorias ora profetizadas em palestras, simpósios, encontros temáticos ou jornadas com especialistas na matéria.
Em 2014, Guimarães inaugurou as suas bacias de retenção que ajudaram a prevenir cheias na Zona de Couros. A medida resultou (em cheio) após anos de martírio para moradores e comerciantes. Os desafios, porém, não se esgotam aqui. Há outros a debelar, a prevenir, a acautelar. Para não reagir, não improvisar, não correr atrás do prejuízo.
AUSÊNCIA DE COMUNICAÇÕES = “GUERRA” DECLARADA!
Há menos de um ano, verificou-se um apagão. Há dias, uma diabólica tempestade devastou a Zona Centro do país. Dois fenómenos distintos, com um denominador comum: a ausência absoluta de comunicações perante um imprevisto!
Seja o SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal) ou outro modelo com um nome mais ou menos sumptuoso, a verdade é que se torna uma missão hercúlea gerir o inesperado, se não houver comunicações.
Guimarães, o Minho, o Norte, têm aqui uma oportunidade de liderar. As fontes de conhecimento das suas universidades e institutos politécnicos podem ser um auxiliar determinante para o desenvolvimento de uma solução. Mas há outro oportuno contributo, que muitas vezes nem é lembrado: a Universidade das Nações Unidas (UNU), com sede em Couros, no centro de Guimarães.
A UNU lida com plataformas universais, é um viveiro de soluções digitais para a Administração Pública de todo o mundo, cruza recursos de múltiplos países, tem uma magistratura de influência sem paralelo, atrai e promove conhecimento. Que não está a ser absorvido para resolver problemas internos. Estes ou outros.
Há quem prefira, porém, fazer “processos de aprendizagem coletiva”, quando a urgência pede ação. Apenas e só. Ação! Só. Não é preciso recorrer aos compêndios das conferências de imprensa da pandemia, fazer uma reciclagem das medidas adotadas e servi-las como solução requentada.
Em 2020, eram ventiladores que faltavam. Agora, são geradores. Foneticamente, os termos são parecidos, as dores continuam a ser cruéis, mas as batalhas são muito diferentes, Senhores Dout…ores!
O que está a fazer falta são telhas, lonas, centros de distribuição de alimentos, acudir situações urgentes, substituir mão de obra exausta, que necessita de descanso, de receber reforços para a fadiga ser alternada.
É muito mais fácil anunciar moratórias bancárias e linhas de crédito do que resolver problemas infraestruturais do nosso país que, periodicamente, as catástrofes expõem! Como a desorganização, por exemplo.
As medidas divulgadas este domingo, à hora do almoço, não são de ação imediata. O governo não está a conseguir agir, quando é necessário ação. Foi assim nos fogos do último verão, quando surgiram destacadas figuras do governo, de copo na mão, na Festa do Pontal, enquanto o país ardia. Relativizou-se. Como agora. Até se perceber que estava (mesmo) em causa uma calamidade.
Quando não se sabe o que é um… S.O.S.
Discutir o nome das coisas não ajuda quem tudo perdeu. Por mero exercício de retórica, já foi feito o mapeamento aéreo da região afetada para deixarmos de ter uma ideia aproximada e passarmos a ter uma real noção da dimensão da catástrofe? A conta gotas, todos os dias, junta-se mais um município em Estado de Calamidade. E já são 69…!
Está quase a completar-se uma semana! Leiria fica a uma hora de Lisboa. Mas demorou-se lá chegar. Ajudar, agora, as pessoas é a prioridade máxima! Como, quem, de que modo, com que meios! Há equipas de bombeiros prontas a servir. Basta alguém que as coordene. Precisa-se de uma voz de comando, de liderança, do Estado Central… descentralizado! Que tome decisões e que saiba o que fazer.
Vai-se ao terreno como se de uma visita de cortesia se tratasse! Sem uma retaguarda que inspire confiança. Os políticos têm de perceber que o seu valor é resultado da capacidade de saber reunir os melhores técnicos e os especialistas mais argutos, perspicazes e hábeis a apresentar soluções, a resolver dificuldades. Se o (melhor) político ouvir mais e falar menos, terá mais reservas do seu dia para poder ouvir o Povo!
Um exemplo, por fim. Aqui ao lado, há pouco mais de um ano, em outubro de 2024, Valência foi vitimada por inundações mortíferas. Em menos de 10 horas, foram ativados os Planos Municipais de Emergência. Em 12 horas, entrou em campo a Unidade Militar de Emergências (UME), um corpo permanente das Forças Armadas espanholas, criado em 2005, para intervir rapidamente em situações de catástrofe, risco grave ou outras necessidades públicas. E, 24 horas depois, foi requisitado o Mecanismo Europeu de Proteção Civil.
As situações não são comparáveis! Como não é seguramente comparável o tempo de resposta de um país e de outro, em contextos de verdadeiro apuro. A ideia da “Brigada Nacional” foi apresentada por Henrique Gouveia e Melo na sua candidatura presidencial. Provavelmente, o cidadão comum desconhecia. Não passou nas televisões.
Nós, cidadãos, não precisamos de estagiários para “processos de aprendizagem coletiva”. Montar um gabinete de crise no epicentro da tragédia poderia ser uma solução. Não para tirar fotografias, mas para ajudar verdadeiramente quem precisa. Porque as previsões anunciam uma semana dura. Em alguns sítios, vai chover o equivalente à pluviosidade média anual de algumas cidades…