Final Four… Leiria 2026… e a taça é nossa
Para mim tudo começou no Aeroporto de Lisboa… Regressado de Munique, com voo de ligação para o Porto, soube, por mero acaso, que o Porto estava a ganhar 1-0. Fiquei triste, mas convencido que mais uma vez “já era”. Embarquei, com um grupo de médicos para o Porto, e rapidamente percebi que eram portistas. A sua alegria era contida, mas confiante. Aterrei no Porto, o que ia à minha frente perguntou ao colega: “Como estamos?”; o outro abriu o seu telemóvel xpto, e disse: “Perdemos!”; e o outro retorquiu: “Como perdemos?! Ainda não acabou!”; e, finalmente, o outro encerrou a conversa: “Estamos a perder 1-3”. Que faço?! Rodeado por portistas, como irei conter a minha alegria?! Com os meus botões gritei – “Ganhamos, c****!”. Nelson Oliveira e Samu (que bisou) foram os heróis. De seguida, liguei à minha rapaziada… e a euforia era total. Mas fui logo alertado – vamos jogar com o Sporting, e, se passarmos, enfrentaremos o Benfica ou o Braga. E, numa confiança a toda a prova, proclamei: “Vamos derrotar o Sporting. O Braga vai ganhar ao Benfica. E nós ganhamos ao Braga. Ou seja, venceremos 4, os três cabeçudos e os do outro lado do monte”. Luís Pinto, comandante desta falange vitoriana, apelou à consistência e maturidade da equipa, que sendo tão jovem manifestava o crescimento, que alguns consócios ainda não aprenderam a saber esperar para mais tarde colher o fruto maduro (quer desportivo, quer económico). E o Vitória Sport Clube, o maior embaixador de uma Cidade, mas amor de muitos adeptos que não são vimaranenses, revela a sua alma que as suas cores relevam: o preto é a unidade e o branco é o amor.
Entretanto, e antes da Final Four, o presidente, Miguel Cardoso, deu uma extensa entrevista sobre a atualidade e o futuro do nosso Vitória. E sempre com a sua abordagem séria e franqueada, e sem falsas promessas, nos põe diante da realidade nua e a crua, que muitos, ou, porque não acham relevante o ditado popular – “Sem ovos não se fazem omeletes” –, ou, porque estão imbuídos em projetos pessoais que vanglória, dizem mal por dá cá aquela palha. Muitos acharam, e ainda alguns o dizem, que este ano é para não descer (todos gostaríamos de estar melhor na tabela classificativa). Os resultados nunca serão imediatos, e muito menos para este projeto audaz que nos foi proposto no fim da época transata. Mas o adepto de futebol é resultadista, e nestes casos rareia a paciência, que só os mais audazes e capazes sabem pacientemente aguardar. Sim, é preciso menos vaidade e mais empenho e trabalho. Que se realiza do primeiro ao último minuto: “o que exigimos é que se respeite o adversário através da intensidade máxima, do minuto 1 ao 90”. Um projeto que pensa o futuro no presente, para que “o Vitória seja viável em termos financeiros e desportivos”, e acrescenta Miguel Cardoso, “a base tem de ser a formação. (…) ir ao mercado encontrar jovens que se pudessem potenciar no Vitória”. Esta reformulação profunda faz com que o Vitória não seja apenas comprador de jogadores no mercado, mas seja igualmente um criador de ativos. E assim, e este é o projeto (que exige muito resiliência e persistência, sem desviar o foco, mesmo quando os resultados não são os melhores casualmente), “construir um Vitória de crescimento para as próximas décadas, não a pensar época a época”. E, por outro lado, democratizar a Taça da Liga e afirmar que o futebol em Portugal não são só os três grandes. Parece uma premonição, pois a final desta edição da Taça da Liga provou a sabedoria das palavras do nosso presidente.
E no dia 6, depois de almoçar no caminho, chegamos cedo a Leiria. Fiquei triste, pois eram poucos os vitorianos. Mas mesmo assim, sempre confiante de que seriamos capazes. O ambiente era escaldante, mas pacífico. O Sporting marcou primeiro, o nosso guarda-redes, que tive ocasião de defender antes do jogo perante um familiar que ficou pouco satisfeito com a sua convocação, foi gigante. Mais de metade da vitória é dele. A outra metade é do jovem Ndoye. 1-2 Ndoye finaliza, golpe de teatro, depois de ter conseguido o empate nas compensações, e impõe um duro golpe. Um pesadelo em dois atos aos leões, que Tony Strata centrou de primeira e Ndoye fez o empate. E o segundo ato, o do costume marcou (Ndoye) e, o costume do sistema que favorece sempre os três, procurou anular com o VAR. Foi letal, mas mesmo assim teve de passar pelo VAR. Ou seja, Charles segurou e Ndoye concretizou a proeza. Mais uma remontada e mais uma final, seja Benfica ou Braga, estava convencido de que daria conta do recado. Luís Pinto, o mais criticado, e que ousou aceitar o desafio do presidente nesta profunda reformulação, afirmou no fim do jogo: “acaba por ser especial pela crítica que foi surgindo”. E acrescentou: “Não foi o dedo do treinador, foi uma vitória de toda a gente”. Já o mal-agradecido, Rui Borges, na arrogância de novo-rico, conferenciou que “saí mais triste pelas lesões do que pelo resto”. E a festa seguiu em alvoroço, esperando que o dia seguinte dita-se o nosso adversário: Benfica ou Braga é para ganhar. Ou como disse um dos nossos heróis, Ndoye: “Vamos à final e vamos ganhar”. Pois o nosso Vitória, que é a nossa vida, e que nos faz sonhar, leva-nos a fazer tudo só para o ver a ganhar. Sim, somos sócios do Vitória e não das vitórias, mas queremos ganhar como todos. Ou seja, sem situações dúbias que favorecem sempre os mesmos. O Expresso, como que espantado, resumia esta final num chavão que diz tudo – “Sem grandes, sem os 93%, mas com o Minho”. O dérbi do Minho, que pela primeira vez na história, decidirá qual é o melhor e o maior clube desta região em que habitamos. Só que o Vitória Sport Clube chegou aqui após derrotar dois grandes, e de forma imaculada está na final.
E chegou o dia da final, 10 de janeiro, e rumando a Leiria, agora em autocarros e com os adeptos do nosso Vitória, o sorriso já ninguém o tirará do nosso rosto. Acredito que será possível voltar a ser feliz, e logo contra o Braga e toda a sua arrogância. A festa é incontida e já ninguém no-la poderá tirar. O jogo começa, e o nosso Vitória joga bem e com decisão. Contudo, o primeiro golo é deles. Aguentamos, e bem, até ao fim da primeira parte. A confiança paira no ar, pois já derrotamos o primeiro e o segundo da Liga. Tudo é possível, até uma nova remontada. E começa a segunda parte, e esta é nossa por completo. Jogar bem e mais ligados, o sermos cada vez mais equipa, e com o apoio dos adeptos excecionais do VSC tudo pode acontecer. E aconteceu, o VAR viu o que ninguém tinha percebido – penálti. E está, empatamos por Samu. O estádio está ao rubro, e os nossos valentes conquistadores não desistem. E nós, na bancada, estamos loucos… a taça vai ser nossa. Ndoye, o suspeito do costume, levanta o estádio, recebendo em cabeçada a bola levantada do canto por Samu. Estamos em brasa, e o homem do apito, depois de dar 9 minutos de tempo extra, marca um penálti contra o Vitória, prolongando o jogo num tempo que parecia nunca acabar. Mas eu disse, “o Charles defende. Vamos acreditar”. O artilheiro do costume do lado do Braga pontapeou a bola, e Charles voou para a direita, defendendo e colocando a bola fora das quatro linhas. Minutos finais, que pareciam nunca acabar, levam ao ponto Zen a alegria dos Conquistadores. E a Taça é nossa. Enquanto Salvador, qual tonto perdido no falso altar da sua vaidade, grita que “o VAR está a matar o futebol”. Tique de grande para quem tem a mania de que é grande. Luís Pinto confirma – “respondemos sempre que as coisas não estão bem” e “vale sempre a pena persistirmos”. E o nosso timoneiro, Miguel Cardoso, exclama – “Temos de habituar-nos a isto”. Mas perder ou ganhar, somos Vitória até morrer. O que faz um vitoriano, que quer sempre ganhar, mais do que os títulos, é outra coisa … é a profunda identidade de alma dos seus sempre fiéis sócios/as e adeptos/as com o Clube VSC. E a noite mais longa, de 10 para 11, foi vivida no coração da Cidade sede do nosso clube VSC. Que será sempre a coisa mais linda. E a taça é nossa.
Guimarães, 15 de janeiro de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira