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Guimarães – o património verde que preservamos

Nuno de Vieira e Brito
Opinião \ domingo, abril 25, 2021
© Direitos reservados
Guimarães é bem co­nhecida pelo seu pa­trimónio arquitectóni­co e cultural.

Pois bem, reconhecendo o seu enorme va­lor, a ele temos que inequivoca­mente adicionar o contributo da população e da sociedade em ge­ral, ao longo de inúmeras gera­ções, assim como a sua interação com o meio (social, económico e ambiental) que nos conduziu até aos presentes dias.

Estamos muito longe dos tempos em que as urbes se dissociavam claramente dos territórios rurais, moldando o individuo ao seu meio, os seus usos e tradições. No Minho, a continuidade de paisa­gem com casarios contínuos e mi­nifúndio, resultado da demogra­fia e do fim da lei dos morgadios (que tinha como benefício a pro­teção da propriedade), tornou-se um desafio importante de imagi­nação e inovação, para alem de inteligência, para quem imple­menta políticas de desenvolvi­mento territorial, em particular no domínio das áreas rurais.

“Assim, eu, de Portugal, esqueci o mau – e constantemente pen­so nas belas estradas do Minho, nas aldeolas brancas e frias – e frias! – no bom vinho verde que eleva a alma, nos castanheiros cheios de pássaros, que se cur­vam e se roçam por cima do al­pendre do ferrador…”

Se longe vão os tempos das aldeias brancas, muito adul­teradas por ausência de pla­neamento (e gosto), ou a inter­pretação queirosiana do espaço rural como espaço de redenção para a pátria, espaço de regres­so às origens portuguesas, não deixa o meio rural de ter, hoje, particular relevância como guardião de segurança alimen­tar e um papel de protagonista ambiental e paisagístico.

Acompanhem-me os leitores num exemplo (será o primeiro) oriun­do deste nosso espaço geográfico, anteriormente com fronteiras mais amplas, e numa das produções mais ancestrais que tanta influen­cia provocou na nossa região e, mesmo, fora desta. Refiro-me à pro­dução de animais bovinos de raça Barrosã, um dos mais importantes patrimónios genéticos nacionais.

Ora, em tempos idos estes ani­mais eram utilizados (em juntas) para trabalho e carne. Para pode­rem melhor lavrar os campos, de forma mais dócil, eram castrados e, após a sua utilização, ensebados (engordados) para carne. Era um momento de celebração para os agricultores pois, mercavam-se as arrobas em peso pelas libras ou arrecadas que luziam as lavradei­ras nas suas orelhas ou os fios ao pescoço. E, neste momento, já va­lorizamos a produção nacional e a segurança alimentar, o comér­cio externo (muitos destes bois exportados do Porto para Ingla­terra, dando origem ao célebre Portuguese Beef), a indústria da ourivesaria (estabelecida em Guimarães e nos concelhos vizi­nhos) e, não menos importante, a felicidade das Mulheres Mi­nhotas e, em particular, as lavra­deiras vimaranenses.

Deu, ainda, um forte impulso às indústrias de curtumes, de cute­laria, às tradições e romarias, à conservação da paisagem, ao orgulho de viver num espa­ço rural. Passado??? Claro que não, dizem os portugueses que reservam mesa num conhecido Assador de Jiménez de Jamuz - Léon para se deleitarem (como dizia Eça) com a carne matura­da de um bom bife proveniente de …. Guimarães.

Nota: Artigo publicado originalmente na edição 1 do Jornal de Guimarães em Revista, em abril 2021.

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