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Mobilidade (in)sustentável

Sara Martins Silva
Opinião \ domingo, maio 16, 2021
© Direitos reservados
O transporte público não é, no nosso concelho, uma opção, sendo, por isso, um fator de exclusão social.

Enquanto contribuinte, cada vez que ouço um político dizer TGV fico muito assustada, pois recordo que, em 2015, uma auditoria do Tribunal de Contas dizia que, sem sair do papel, o TGV já tinha custado aos contribuintes portugueses 153 milhões de euros.

Aliás, toda a gestão da ferrovia em Portugal é digna de um caso de estudo. A ligação Porto - Lisboa demora hoje 2 horas e 58 minutos, o mesmo tempo que demorava em 1977, isto depois de terem sido gastos 1,3 mil milhões de euros na modernização desta linha.

E, se o assunto TGV a nível nacional é um enredo de terror, ver a discussão a nível local leva-nos para o plano do surrealismo. Por estes dias foi notícia a discussão em reunião de Câmara da vontade dos políticos locais de aproximarem a linha de alta velocidade de Guimarães, o que até seria uma discussão relevante para se ter no século XXI.

Mas a verdade é que, em termos de mobilidade no concelho, não estamos neste século e, por isso, importa olhar para as necessidades dos vimaranenses no seu dia a dia. O autocarro de S. Leocádia para Guimarães, por exemplo, demora uma hora a percorrer pouco mais de 10 km. A frota de veículos está obsoleta, os preços, quando comparados com os valores praticados noutros municípios, são demasiado elevados e os horários não oferecem muita escolha aos utilizadores.

Os seis quilómetros da N101 que separam as Taipas de Guimarães são quase uma via sacra para quem tem de os percorrer todos os dias. Entre as 8:00h e as 19:00h o ritmo é de passo de procissão, o que dá cabo da paciência a qualquer santo.

E o problema não se fica pelo acesso à cidade. Tentem ir à Penha de transportes públicos depois das 18h00; o acesso a este que é um dos principais ex-libris turísticos da cidade é um embaraço. 

No Plano de Mobilidade Sustentável, que a Câmara pomposamente apresentou em 2018 como sendo o primeiro município a ter um plano deste tipo, está bem explicada a situação caótica que é a mobilidade em Guimarães. E é-o muito por causa da má qualidade da oferta de soluções de transporte público, o que é uma responsabilidade da autarquia local. O transporte público não é, no nosso concelho, uma opção, sendo, por isso, um fator de exclusão social.

E se a mobilidade dentro do concelho é má, tentar sair não é mais fácil. A ligação ferroviária da cidade é miserável, sem que o executivo vimaranense alguma vez tenha mostrado desagrado com isso. O Alfa pendular deixou de servir Guimarães e há apenas um Intercidades para Lisboa. O comboio urbano para o Porto chega a demorar uma hora e meia a percorrer os 60km que nos separam daquela cidade.

Se o argumento para reclamar a ligação ao TGV é o escoar de mercadorias, pois, então, discutamos primeiro o rápido acesso das empresas à rede viária existente. A não construção de um acesso à autoestrada em Brito, que servisse toda a zona norte do concelho, foi uma decisão política, destes mesmos políticos que governam o município há 30 anos.

Se o argumento é ambiental, a preservação do meio ambiente começa nos hábitos diários, nas viagens de todos os dias, aquelas que somos obrigados a fazer no nosso carro por falta de opções na oferta de transportes públicos.

Se o argumento é ligar Guimarães ao mundo, pois comecem por reivindicar melhores acessos ao Porto com comboios urbanos mais regulares e diretos. Mas parem com as demagogias. Parem de nos iludir com promessas futuristas quando, em matéria de ferrovia, parámos no tempo do Fontes Pereira de Melo.

 

Nota: Artigo de opinião originalmente publicado na edição #02 do Jornal de Guimarães em Revista, a 14 de maio de 2021

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