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Mumadona, não Vímara Peres

Amaro das Neves
Opinião \ domingo, fevereiro 20, 2022
© Direitos reservados
Nada existe que ligue Vímara Peres a Guimarães, a não ser um equívoco e a coincidência do nome. Aliás, no tempo do presor do Porto, Guimarães nem sequer existia.

Ouvimos dizer que os vimaranenses se orgulham da história da sua cidade, mas sabemos que, muitas vezes, a conhecem mal, porque anda mal contada e, aqui e ali, embrulhada em narrativas que brotam mais da imaginação do que do conhecimento histórico.

Para o perceber, basta dar um pouco de atenção à informação que é passada aos que visitam a cidade. Mostram-lhes o singular alpendre gótico com o seu belíssimo cruzeiro, que teria sido mandado erguer em memória da Batalha do Salado, por D. Afonso IV, rei insuspeito de afeição por esta Guimarães que lhe resistiu e se manteve fiel a D. Dinis, seu pai, em tempo da guerra civil. Na verdade, o Padrão da Oliveira foi mandado erguer por um comerciante vimaranense radicado em Lisboa, por devoção a Santa Maria e gratidão à terra onde nasceu.

No outro lado da Praça Maior, a que teimam chamar largo, apontam a estátua do guerreiro de lança e armadura que simboliza Guimarães e contam uma história pitoresca e fantasiosa — Alfredo Pimenta chamou-lhe história da carochinha — que a relaciona com a conquista de Ceuta e a servidão da vassoura a que estariam sujeitos os vereadores de Barcelos. É certo que a servidão existiu, mas obrigava os moradores de duas freguesias, Cunha e Ruilhe, hoje do concelho de Braga, mas que antes, bem antes da tomada de Ceuta, pertenciam a Guimarães — e não a Barcelos, que supostamente as teria entregue a Guimarães para se livrar da ignominiosa sujeição.

Junto ao castelo, recontam a história da batalha fundadora de 1128 e, apontando para o vasto terreiro que se estende até à igreja de S. Dâmaso, dizem que foi ali que o recontro se travou, dando como o prova o nome do lugar, Campo de S. Mamede, omitindo que só se chama assim por decisão camarária de 1943 e que a batalha foi noutro sítio.

E, no momento de discorrer sobre o nascimento de Guimarães, informam que foi criação de um bisavô de Mumadona chamado Vímara Peres que, depois de consumada façanha que o notabilizou, a presúria do Porto, aqui se instalou e viveu até ao dia da sua morte. Porém, não está demonstrado que Vímara Peres fosse senhor das terras de Vimaranes, que aqui tivesse vivido e morrido, que desse o nome a Guimarães ou que Mumadona fosse sua bisneta. Antes pelo contrário.

A associação de Vímara Peres a Guimarães fundamenta-se, apenas, numa verba inscrita no Livro dos Testamentos de Lorvão, que diz: era DCCCCXI uenit rex adefonsus in uama, et in VI die uimara mortuus est, o que se traduz assim: na era de 911 (ano de 873), veio o rei Afonso a Vama e, no sexto dia, Vímara morreu.

Sabendo-se que o rei é Afonso III das Astúrias e que Vímara será Vímara Peres, haveria que situar o lugar denominado Vama. Num estudo publicado em 1923, o Padre Gonzaga de Azevedo afirmou que Vama era uma abreviatura de Vimaranes, e daí se concluiu que Vímara Peres era senhor das terras de Vimaranes, onde fundou a vila, se recolheu após a presúria do Porto e terminou os seus dias.

É verdade que, anos mais tarde, o mesmo historiador corrigiu aquela leitura e não teve dúvidas em afirmar que Vímara Peres faleceu na Galiza, na localidade de Vama, situada junto do Pico Sacro, Santiago de Compostela. Mas já não foi a tempo de evitar que o equívoco criasse asas para voar. E ainda voa tão alto que lhe prometeram uma estátua em Guimarães.

Em rigor, não existe qualquer evidência de que Guimarães deva o seu nome ao presor do Porto, tendo-se por assente que Vimaranes deriva de um nome germânico, possivelmente o do seu primeiro possuidor, que poderia ter sido Vímara Peres ou outro Vímara qualquer, já que havia outros com o mesmo nome, assim como havia outros sítios chamados Vimaranes (como aquele onde foi implantado o Mosteiro de Celas, em Coimbra).

Seguindo as genealogias de cinco linhagens das famílias condais portucalenses dos séculos X e XI, fixadas pelo historiador José Mattoso, percebe-se que Mumadona Dias, da linhagem de Diogo Fernandes, de quem era filha, e que casou com o conde de Hermenegildo Gonçalves, que descendia de Ero Fernandes, não era bisneta de Vímara Peres, nem adquiriu essa condição pelo casamento.

Nada existe que ligue Vímara Peres a Guimarães, a não ser um equívoco e a coincidência do nome. Aliás, no tempo do presor do Porto, Guimarães nem sequer existia. No máximo, era uma villa de tradição romana — não uma povoação, mas uma simples propriedade rural (hoje chamar-lhe-íamos quinta).

O burgo primitivo de Guimarães nasceu oito décadas após a morte de Vímara Peres, à sombra do mosteiro que a Condessa Mumadona instituiu na sua villa de Vimaranes e do castelo que mandou erigir, alguns anos mais tarde, para o proteger. Mumadona Dias é uma mulher extraordinária que se destacou num tempo de mulheres poderosas. Ela é a fundadora de Guimarães.

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