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O desporto e a economia (continuação) - parte 7

Francisco Oliveira
Opinião \ domingo, março 03, 2024
© Direitos reservados
Quando o futebol, o desporto mais democrático e popular, se torna insuportável para uma família média portuguesa, os senhores do negócio futebol continuam assobiar para o ar. Claro, ganham o mesmo.

     O campeonato de futebol português é servido à hora do jantar. A SportTV anuncia emoções, sobretudo quando jogam os ditos grandes ou dérbis, e convida-nos a fazer parte das emoções do sofá e da solidão quente e seca da casa que habitámos. Enfim, fan engagement, ou mais uma técnica de marketing que favoreça o negócio das televisões no “negócio do futebol”. As televisões generalistas fazem o mesmo, e os comentadores do fenómeno desportivo – enganei-me, do futebol – são mais do que muitos a falarem até à exaustão sobre os mesmos temas (e os mesmos clubes). Abrirem um telejornal com uma vitória dos grandes, mesmo que algo de importância maior tenha acontecido no país ou no estrangeiro, e deixarem para as réstias das notícias o resultado dos outros clubes. É tal o domínio da televisão que, por exemplo, na época 21/22 na I Liga de Portugal dos 306 jogos 258 foram às 20h ou depois. E porquê? Porque as televisões mandam e comandam o futebol, quer nas suas organizações internacionais e nacionais, quer nos clubes. O seu dinheiro, não raramente adiantado (e por isso mesmo mais torna dependentes de si os clubes e as organizações), tornaram-se um parceiro indispensável deste jogo, quer como desporto quer como atividade física, e entre nós, por maior razão, no futebol.

     Sabemos que o agendamento das partidas do campeonato é um processo centralizado na Liga. Neste processo a Liga medeia a solicitação dos clubes, a marcação dos jogos, e sobretudo quando se exija o acordo dos clubes. Sabemos que antes dos jogos, com base numa espécie de tabela predefinida pelo detentor dos direitos televisivos, costuma acontecer uma reunião entre os responsáveis da entidade e de cada equipa. As horas predefinidas costumam ser 15h30, 18h, 19h, 20h15 e por aí fora. Mas se fizermos uma breve comparação com a Premier League, o que nos faz perceber como é diferente entre uma e outra Liga o procedimento, e sendo esta a que mais dinheiro move e gera, estranhamos mais ainda os procedimentos em Portugal e o domínio absoluto das televisões. Na Premier League (sem dúvida a melhor do mundo) os jogos são marcados depois das 17h30 se acontecerem durante a semana. Ou na Bundesliga nunca há jogos a começarem depois das 19h30. Como chegamos aqui? Como é possível um clube ser detentor de direitos televisivos – a BTV – e que lhe dá uma vantagem sobre os demais? Como, e basta um dos ditos grandes entrar neste barulho, e logo impera a lei da transmissão televisiva em que os jogos são preferencialmente no período da noite? Enfim, a noite impera no nosso jogo.

     Este é um futebol, ou desporto em geral, virado para a televisão e outros meios de transmissão (telemóveis, Ipads, computadores, etc…), mas, talvez, em morte lenta. Pois, além desta presença do jogo no ecrã, acentua-se a ausência de adeptos nos estádios. Celebramos cada jogo em que o número de adeptos no estádio atinge valores, não raras vezes a metade da sua capacidade, “significativos”. E porquê? Porque o valor de um bilhete/ingresso para um jogo dito popular está em valores comparáveis ou acima de espetáculos ditos eruditos ou elitistas. Sem dúvida que este é um fator decisivo, de sobremaneira num país de salários baixos (quer o mínimo, quer o médio), para afastar os adeptos da bancada. Na Premier League há um valor definido, na Bundesliga há um valor definido, em La Liga há um valor definido para o bilhete de ingresso num estádio, etc, etc, e todas elas ligas mais ricas e com mais competição que a nossa I Liga. E em países com salários bem mais altos que os nossos. Mais, algumas definiram o preço a pagar para as deslocações, mostrando a importância crucial dos adeptos, só eles são capazes de gerar a melhor atmosfera nos jogos. E, para quem verdadeiramente sabe fazer dinheiro, todos ficarem a ganhar – os garanhões do negócio do futebol, os clubes, e os adeptos. Não se percebe – ou melhor, percebemos, só que as razões são abomináveis – como em Portugal existe um price cap correspondente a cerca de um décimo do salário mínimo nacional. Mais, como é possível não ver nisto um problema quando vemos estádios vazios?

     Quando o futebol, o desporto mais democrático e popular, se torna insuportável para uma família média portuguesa (quanto mais nos escalões sociais de menores rendimentos), os senhores do negócio futebol continuam assobiar para o ar. Claro, eles ganham o mesmo. Mas como não copiar as atitudes e decisões de ligas de outras paragens, como a Premier League, que é aquela a quem mais rende este negócio e tem estádios (pequenos ou grandes) repletos de adeptos?! Urge devolver o futebol às pessoas, aos adeptos e aos sócios. O futebol é do povo, e não dos pseudointelectuais do jogo (ditos comentadores) e dos que querem aprisioná-lo num ecrã qualquer, e que promovem cada vez mais condições para o futebol ser visto num ecrã. O maior ativo do jogo está na bancada, se não perceberem isto matarão o futebol.

Continua…

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