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O Desporto Rei: Futebol, história e peripécias (continuação)

Francisco Oliveira
Opinião \ quinta-feira, setembro 24, 2026
© Direitos reservados
Nem a guerra esmoreceu o gosto do e pelo futebol, mas, igualmente, não desapareceu o apetite político de se aproveitar deste fenómeno, cada vez mais global.

Mas nós que gostamos de futebol, e do desporto em geral, não deixaremos que ele se perca nos caminhos dos interesses. E tão opacos que eles são! Mas enquanto houver um ou mais carolas que jogam por prazer e pelos valores que ele transmite, ninguém o ofuscará da nossa presença. O futebol provoca tanta paixão, que não raras vezes nos cega, e que alguém já nomeou, ora como virtude para uns, ora como doença para outros, de futebolismo. Mas o futebol é hoje um sistema muito poderoso e complexo, superando os estádios, quer nos que o praticam, quer nos que o apoiam como sócios ou adeptos, quer nos que são eleitos para dirigir. Assim, a significação antropológica e filosófica do futebol como espetáculo – palavra maior do negócio futebol –, como competição e como ritual é um desafio maior que nos deve mobilizar na análise e estudo deste fenómeno sociopolítico, em que se tornou. Será o novo ópio? Talvez! Mas ópios há muitos, que aqueles que gostam de fazer trocos com tudo, sabem os promover como ninguém. Mas é um exagero, como define Jean-Marie Brohm, como uma peste emocional. E sim, haverá sempre os que em nome de valores maiores, como cúmplices do negócio, sejam intelectuais ou filósofos, sejam cientistas sociais ou especialistas na ecologia humana e social, que se deixaram envolver pelo deus do dinheiro e do poder. Mesmo que possamos definir o futebol como uma religião, seguida por fervorosos adeptos, e em busca de ídolos e/ou totens. Uma religião panteísta e pagã, sem transcendente e sem infinito. E na atração fatal, entre o futebol e o espaço público mediático, que, sem tréguas, aquece divergências e gera atitudes e vontades de violência. Como a comunicação social, e hoje as redes sociais, são a lenha e o lume de uma fogueira em brasa pela emoção e soprada pelos medias e as redes sociais. Em rigor, uma tagarelice que não deixa apagar a chama e aumenta a lavareda. E pega fogo.

Ao futebol, nada lhe é estranho. Podíamos, mesmo, fazer uma história política do futebol, sobretudo a partir do Primeiro Campeonato do Mundo de Futebol, 1930. Assim, realizou-se no Uruguai para celebrar o centenário da independência desta nação sul-americana. Seguiu-se a Itália em 1934, e o surgimento do Fascismo de Benito Mussolini, de 1922 a 1943, com o seu militarismo e nacionalismo extremo, com o controlo total do estado. E como foi manipulada a competição para exaltar o sentir nacional de Itália. Em 1938 foi a vez de França, no finalizar da Terceira República, de 1870 a 1940. França procura recuperar o seu papel geopolítico, que cada vez mais era menos significativo na contemporaneidade. Que a ocupação da Alemanha nazi confirmará. A Segunda Guerra Mundial interrompe esta competição do Campeonato do Mundo de Futebol. Ou seja, as de 1942 e a de 1946. A Quinta edição, em 1950, será no Brasil – o país do futebol. Nem a guerra esmoreceu o gosto do e pelo futebol, mas, igualmente, não desapareceu o apetite político de se aproveitar deste fenómeno, cada vez mais global. Logo, nos finais de 1945, a União Soviética, servindo-se do comunista britânico e historiador, Eric Hobsbawm, fez chegar à embaixada soviética, assinada pelos seus camaradas de armas da unidade militar de engenharia britânico, uma bola de futebol. E os soviéticos fariam chegar a sua oferta aos seus colegas na unidade equivalente à sua. A festa estava instalada, o jogo estava de regresso, e os soviéticos aproveitaram para fazer diplomacia, propaganda e diversas cooperações. Hannah Arendt gravava, na sua reflexão filosófica, o termo totalitarismo, que a partir desse momento denunciará todas as sociedades e regimes que se opõem à democracia. A segunda metade do século XX, quer no futebol, quer no desporto em geral, e, particularmente, nos Jogos Olímpicos, veremos as nações vencedoras da Segunda Guerra Mundial, servirem-se do jogo como lugar privilegiado para a confrontação política. Nos anos 80, em 1980 em Moscovo, e em 1984 em Los Angeles, os boicotes denunciam esta guerra fria transferida para o jogo.

Mas, até ao final do século XX, e já no nosso século XXI, a política está – e mais do que nunca – presente. E nestes tempos de radicalismos, onde a sombra dos totalitarismos se adensam, mais preocupante se torna. Os atletas de alta competição, além de ganharem muito dinheiro – como nunca tinha acontecido – são colocados nos satélites das grandes empresas, que se aproveitam do negócio do Futebol, e fazem dos mesmos atores de relevo (referências míticas) na publicidade comercial e financeira, e na propaganda política. Empresários e políticos, como nunca sabem fazer render o seu negócio e o seu poder. O Mundial dos Estados Unidos da América, juntos com o México e o Canadá, provaram à saciedade como Donald Trump e os seus sequazes se aproveitaram de um jogo que não conhecem, nem gostam, como o futebol, e como os empresários construíram regras e publicidade agressiva, antes e durante de cada jogo de futebol.

Esta é uma história já com barbas, com rostos como o do brasileiro Havelange na presidência da FIFA, e o seu sucessor, o suíço Joseph Blatter, que, depois de 18 anos de presidência, no olho do furacão de um escândalo internacional, em 2016 um novo sucessor perfilhava-se. Uma eleição com muitos protestos, com cartazes e gritos de ordem, enquanto a imprensa aguardava pelos resultados. Como uma surpresa esperada e temida o sucessor é o secretário-geral da UEFA, Gianni Infantino. Está o caldo entornado. Nas suas promessas antevê-se a lógica que o guia – dinheiro, dinheiro, e poder, poder. Enfim, esta eleição revela apenas o subproduto de uma crise institucional com raízes históricas de média duração. Se as entidades que geram o futebol, quer na Europa, quer no Mundo, se regem por uma mundividência que coloca o jogo no lugar de uma mera oportunidade para fazer negócios, que enriquecem os seus cofres e os seus bolsos, como podemos esperar que este futebol, desporto-rei, seja capaz de promover os valores que sempre o animaram? Parece que os valores da Bolsa são o mote principal dos que se movem neste mundo do negócio do futebol. Não quero ser habitado por um pessimismo crónico, mas também não quero ser um boquiaberto ingénuo. E, talvez, como Oscar Wilde, terei de concluir que “quando era jovem pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje tenho a certeza”. Mas, igualmente, sei, como escreveu Simone Weil, “o dinheiro é um meio de compra, o poder, um meio de domínio”. Mas um e outra, também sabem que o dinheiro é poder, e só terá poder quem tiver muito dinheiro. Esta é a triste realidade com que se mede a vida nos nossos dias, como fazem os estados com o PIB.

 

Continua…

 

Guimarães, 24 de setembro de 2026

Pe Doutor Francisco de Oliveira

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