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O Desporto Rei: Futebol, história e peripécias (continuação)

Francisco Oliveira
Opinião \ segunda-feira, junho 08, 2026
© Direitos reservados
Este enviesamento do comentário futebolístico e a guerrilha permanente entre dirigentes e instituições, será sempre o rosto feio e pobre de um jogo tão democrático e belo como o futebol.

O futebol, no mundo e, de sobremaneira, em Portugal, é o locus principal para apurar o ethos das instituições desportivas, dos atletas, quer profissionais, quer amadores, e dos sócios e adeptos dos clubes, e do futebol em geral. Karl-Otto Apel, na sua obra – Ética e Responsabilidade (2007), no capítulo – O significado ético do desporto na perspectiva de uma ética do discurso universalista, fala-nos do desafio de estabelecer uma relação entre o ponto de partida do discurso ou da comunicação e a problemática ética do desporto. Especialmente, a questão de saber como se poderá aplicar esta fundamentação da ética do discurso ou comunicação de partida à problemática do desporto? O desporto, e particularmente o futebol entre nós, está cercado de ruído que faz pagar um preço alto à ética (o ethos, ou seja, o saber estar e comportar-se), de sobremaneira nesta competição do lucro e das finanças que se instalaram no futebol contemporâneo. Tornando o desporto, em particular, o futebol, um lugar (o locus que permite a vizinhança e a partilha dos valores mais altos do desporto) um campo de batalha do capitalismo financeiro que tudo reduz a lucro, e não de partilha e de competição pelos objetivos mais válidos do desporto. Como escreveu Apel, o princípio fundamental afirma que só são “legitimáveis aquelas normas, cuja observação universal tem, segundo todas as previsões, consequências que num discurso argumentativo sobre legitimação de normas («discurso prático») possam ser aceites sem coação por todos os atingidos” (p. 165).

Então, como aplicar ao discurso e à atitude de dirigentes e instituições, dos atletas, dos sócios e adeptos do desporto rei tal princípio fundamental? Ou, se quisermos, uma ética da responsabilidade? O sentido antropológico e eticamente relevante do desporto em geral, e do futebol em particular, torna urgente a observação deste princípio fundamental. E, assim, por exemplo, a partir do ideal do fair play sermos capazes de produzir uma relação interna entre o fenómeno desportivo e o enunciado princípio fundamental de uma ética, ou mesmo deontologia, tornando evidente que se parta do fenómeno das regras do jogo, como condições conjunturais limitadoras, sob as quais os participantes na competição concorrem para a vitória, podendo fazê-lo como adversários e não inimigos ou opositores a abater. Ou seja, a possibilidade de estabelecer uma relação de reciprocidade. Regras e leis que o sejam eticamente relevantes, e constituintes/definidoras do jogo, porque o são somente, na aplicação destas regras, numa relação de reciprocidade humana. E, por outro lado, promotoras de igualdade de oportunidade. Pois, o relevante, mais do que as regras reguladoras, é o fairness – a justiça, a equidade, a imparcialidade – como promotor de facto da reciprocidade humana no jogo, que é anterior às regras especificas de cada jogo ou desporto. Ou, como escreve Karl-Otto Apel, “pelo menos num aspecto parcial da sua função as regras de jogo do desporto tal como as normas jurídicas podem ser consideradas como concretização de uma norma geral de reciprocidade, e tal como as normas jurídicas elas actuam como condições conjunturais limitadoras para o comportamento concorrencial estratégico do ser humano” (p. 170). Portanto, com esta obrigação de justiça e equidade, e favorecendo a lógica da oportunidade para todas e todos – fairness –, e orientada por regras e normas de jogo, já nos dará um modelo suficiente para a intuição fundamental de uma ética da justiça.

Se é verdade, e sobretudo no futebol português (como repetidamente os três “grandes” o confirmam), que o jogo perdeu corpo e ganhou linguagem, e linguagem quase sempre pobre, que se diferencia pelo argumento do volume (vulgo, gritaria). Como uma nova categoria argumentativa, que a retórica grega da Antiguidade nunca soube descobrir, “o grito é mais inteligente do que a voz média ou o do sussurro” (Gonçalo M. Tavares, in Expresso, Primeiro Caderno, de 30 de junho de 2018, p. 07). Será que os tontos foram os filósofos gregos ou serão os vendedores da banha da cobra dos ecrãs que nos cercam?! Por isso, mais à frente, M. Tavares interrogasse: “como seria ver um jogo de futebol num ecrã quadrado. (…) a perturbação óptica e mental aumentaria se, de repente, os ecrãs passassem a ser esféricos ou com forma triangular. (…). Como se, no fundo, só a forma retangular pudesse captar o essencial do mundo. / Mas o facto é que o nosso horizonte não retangular, não tem a forma de um ecrã. A visão periférica e lateral mostra bem que a natureza humana é bem mais larga do que o ecrã clássico parece mostrar. (…). / (…) / Um descendente de Platão, que veja futebol através destes ecrãs de televisão, estou certo de que não ficará satisfeito com este predomínio esmagador do retângulo”. Ou seja, o mundo, mesmo o do futebol, não é preto e branco, mas uma belíssima mistura de cores muito variadas.

Este enviesamento do comentário futebolístico e a guerrilha permanente entre dirigentes e instituições, será sempre o rosto feio e pobre de um jogo tão democrático e belo como o futebol. Assim, ao entender-se a ética do discurso enquanto uma versão pragmática-linguisticamente de uma ética universalista-deontológica, será possível enfrentar as regras de jogo na sua iludibilidade, pois elas próprias são objeto de discussões. As regras de jogo, na medida em que elas são eticamente relevantes, apenas possuem em princípio o estatuto de regras, que no segundo nível da ética do discurso, os discursos práticos, terão de ser antes de tudo, enquanto regras capazes de consenso, fundamentadas ou legitimadas. E esta será sempre uma validade intersubjetiva de sentido linguístico e a reivindicação em princípio de uma capacidade de consenso de reivindicações de verdade. Mas sempre, como forma de existência humana, dependendo da profundidade em que o momento da justiça e da equidade, promovendo a igualdade de oportunidades, é legitimado (cf. Karl-Otto Apel, pp. 176-177). Abre-se para o instinto agonal (o agón grego, ou seja, a competição, ou concurso/desafio) uma possibilidade lúdica de satisfação e eticamente aceitável. Contudo, e perante os atropelos que presenciamos na beleza deste jogo, que apelidamos de Futebol, o Desporto Rei, “desejável é então, pelo contrário, uma sublimação tanto estética quanto ética do instinto de agressão e da rivalidade na forma de competição fair pela vitória ou pela realização máxima” (Apel, p. 185).

 

Continua…

 

Guimarães, 05 de junho de 2026

Pe Doutor Francisco de Oliveira

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