O Desporto Rei: Futebol, histórias e peripécias (continuação)
Mas não é só o dinheiro e os seus negócios obscuros que condicionam o futebol, quer como desporto, quer como atividade física. O poder económico-financeiro, o poder político e outros poderes, gostam de usar o jogo, seja ele qual seja, para propagandear ideologias e interesses que vão contagiando o futebol, e este de forma particular. Como não recordar, e neste caso, em Portugal, a nacionalização de Eusébio (deixarei Ronaldo para momento mais oportuno), ou como o estado português democrático, o poder político por unanimidade, o transformou em património nacional, e com honras de Panteão Nacional. Algo inédito, que, como uma caixa de pandora, banaliza um gesto e um local que deve honrar os maiores. Pobre nação a nossa, que compara os feitos desportivos aos feitos que construíram, durante 900 anos, esta pátria nossa. O texto aprovado na Assembleia da República (Projeto de Resolução nº 1232/XII) afirmava que ele “mais do que um futebolista de exceção (…) foi uma figura marcante do século XX português. Imediatamente reconhecido em qualquer parte de globo e ligado à imagem de Portugal, também pela sua personalidade, afabilidade e humildade ganhou um estatuto especial no coração dos portugueses e uma dimensão simbólica que fundamentam as honras de Panteão que agora propomos”. Este texto salienta o lado humano do atleta, que nunca se terá deixado encantar pela glória alcançada, e que, por isso mesmo, todos admiravam a sua simplicidade e humilde. Quase que me recordo do lema salazarista de pobres, mas felizes. Cavaco e Silva apresenta-o como alguém possuidor de “surpreendente humildade (com que mostra) a grandeza do seu génio”. E uma fabricação de Eusébio e da sua biografia, o menino pobre de Moçambique, possuidor de valores irredutíveis, criou um ídolo depois de morto. E torná-lo a alma nacional e o herói popular, que mais ano, menos ano, ninguém saberá quem foi. Mas que no agora da história dá dividendos a quem a promove. Porém, sem dúvida, o futebol é um dos fenómenos que tem dado origem a diversos discursos sobre a identidade nacional e criado símbolos nacionais.
O futebol, goste-se ou não, é um dos fenómenos globais mais poderosos, e serve-se, como ninguém, da dita cultura de massas ou popular, que ninguém sabe definir o que tal significa, que entre nós mais desperta atenção. Parece que dá para tudo, desde o futebol à política, desde o amor ao ódio. Mesmo quando, os discursos de tom enfático e inflamados, e as pompas das circunstâncias superem, e de longe, o entendimento das massas, ou do povo. O caso de Garrincha (Manuel dos Santos) e do futebol brasileiro, nos anos 50 e 60 do século XX, são paradigmáticos, normalizando o regime e o racismo, na vanglória da pobreza, tornada agente efetivo do futebol e dos seus atletas. Uma mitologia futebolística, que as clivagens socio-raciais nos seus clubes e na sociedade, como o jovem pingente, e de pernas tortas (Garrincha), que no exterior da carruagem do comboio se deslocava para a Cidade Maravilhosa. Só para praticar o jogo que mais gostava, o futebol. Assim, se construiu o Brasil como país do futebol, a quem se atribuía o poder de redimir o povo brasileiro da sua miséria e do racismo, que marginaliza e oprime. Assim escreveu a impressa no seu Mundial de Futebol em 1958 – “vitória dos humilhados e ofendidos do Brasil”.
Mas os adeptos não são um grupo uniforme, mas uma amalgama de muitas identidades diferentes e origens diversas. Ricos e pobres, sábios e incultos, trabalhadores braçais e trabalhadores intelectuais, jovens e velhos, etc, e hoje, mais do que nunca, os géneros estão todos presentes no desporto-rei. O que apelidamos de paixão clubista, não raramente superior ao gosto pelo futebol e desporto em geral, é um motor que promove encontro, mas, também, faz acontecer a violência em contexto desportivo – na relva e na bancada, na rua e na comunicação social, no mundo digital em todas as suas expressões, e – para não ser exaustivo – onde se encontre qualquer adepta/adepto de jogo tão simples e tão capaz de envolver uma multidão num grito único. Numa gramática identitária diacrítica, a agência clubista, é uma função dessa gramática, e aqui a afinidade só pode ser antitética, regularizando a danificação e a exaltação. E quando a regra da desolação dos tifosi de um clube se torna combustível dos tifosi do clube adversário (ou mesmo, mais radicalmente, inimigos), está entornado o caldeirão da violência. E, não tão raramente, são expressões extremistas de fações políticas da extrema-direita e da extrema-esquerda. Ou mesmo, mafias nacionais e internacionais. Um mundo cada vez mais perigoso, que parece crescer com o negócio do futebol. E os novos estádios, que procuram regularizar e reconfigurar o comportamento dos adeptos e do público do futebol em geral, parecem promover um escalar da violência no exterior do estádio, mas, por outro lado, promovem uma nova criatividade engenhosa da mesma. Aqui, agora, o panoptismo, o olho do Big Brother, onde não há lugares e, muito menos, espaços esconsos nas bancadas destes novos estádios. Alguns sociólogos falam mesmo do pós-adepto, neste futebol que agora oferece espetáculo e entretenimento, e já não o escape social dos trabalhadores de uma longa semana de horas de labuta, e de identidade de uma cidade, de uma região, de uma classe, etc, mas diversão e distração. E aqui, como no resto, a economia e o mundo das finanças, com o negócio de entreter, distrai o adepto da dimensão política que implica a intervenção do cidadão democrático, e facilita o manietar do jogo, dos jogadores e dos adeptos. Uma normalização, higienização e docilização das multidões, perdendo a democracia os cidadãos tornados agentes, que amorfos tomam parte de um espetáculo e festival, garrido e rico de emoções, mas acéfalo. O pós-adepto é agora, não o sócio, mas o adeptos-espetadores.
Alguns intelectuais do século XX e XXI disseram coisas admiráveis sobre o futebol, a sua paixão e a sua envolvência. Paul Dietschy consagrou um livro ao futebol intitulado Histoire du Football (2010), onde faz um elogio narrativo dos clubes, dos jogadores e dos treinadores, como excepcionais, e o estádio como criador de “novas redes de sociabilidade, mas também de fruição de momentos de liberdade e excitação que a vida na fábrica excluía”. Ou, Jean-François Pradeau que apresenta, no livro Dans les tribunes. Éloge du supporter (2010), o estádio como o verdadeiro coração do futebol que torna possível “uma experiência erudita e erótica”. E define o futebol como o verdadeiro objeto da filosofia, bem como o seu caráter popular. Uma experiência espiritual, moral e apaixonada numa “cerimónia amorosa”. O “estádio é amor”, sim, mas algo de exagerado é expressado, pois o autor – como eu – é um apaixonado pelo jogo da bola. E descreve esta paixão, erudita e erótica, nestes termos: “lancemos nos braços uns dos outros e nos abracemos enquanto berramos e nome do nosso herói, que já terá despido a sua a camisola para vir a correr oferecer-vos o seu corpo, que amaremos sem reservas”. E Robert Redeker, antigo crítico do futebol, e agora um admirador do jogo da bola, o apresenta como um grande acontecimento sociológico bem com a futebolização das elites e dos intelectuais. Multidões que explodem de alegria ante o sucesso dos seus clubes, e aqui os povos rejeitam a dissolução e auto-afirmam a sua identidade. E, igualmente, no futebol “milhões de pessoas que me são desconhecidas tornam-se meus irmãos e minhas irmãs”. Uma grande família que este desporto funda. E mais, “se o futebolista não é um artista, é pelo menos um parente próximo”. Stéphane Beaud e Mickaël Correia são outros que nos relembram que muitos intelectuais e académicos estão com este jogo maravilhoso que é de todos e para todos, popular e democrático, mesmo diante dos perigos que se anunciam no tempo presente. Já Marc Perelman fala do futebol como o epílogo dos intelectuais, pois “nunca o futebol foi um meio de luta contra o fascismo, nunca ajudou ou favoreceu o mais pequeno avanço social das classes, nunca pôs em causa a ordem social”.
Ainda bem, como adepto de jogo, que muitos, como eu, gostam do jogo da bola, mesmo que sejamos académicos e intelectuais, operários ou funcionários públicos, e não nos deixamos manietar por interesses outros que se gostam de imiscuir com a sentir e o viver do Povo. Concluo, por agora, com o diplomata e historiador – “Só quem não tenha jogado à bola na infância pode estranhar o amor que o futebol suscita nos adultos. Quando começa o jogo, o tempo suspende-se e a atenção concentra-se. Nada mais existe no mundo senão a trajetória da bola. A competição é intensa, mas sem verdadeiro objeto. No desporto não se arrisca a vida, nem a carreira, nem a bolsa. Tudo se esgota naquele momento”. E, “não precisamos de diploma para sermos todos doutores da bola” (in Electra, nº 17, Verão 2022 p. 228 e p. 234).
Continua…
Guimarães, 23 de outubro de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira