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O espírito de 1884

Amaro das Neves
Opinião \ sexta-feira, março 29, 2024
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1884 é o primeiro capítulo do grande livro da cidadania vimaranense. Uma obra construída com o espírito comunitário, o trabalho e o esforço económico das gentes de Guimarães.

No início do último quartel do séc. XIX, Guimarães parecia uma fidalga velha, caduca e falida. Cidade triste e abatida, vivia à sombra do seu antigo esplendor, cada vez mais longínquo. Habituada a ser a cabeça de uma comarca extensa, fértil e populosa, com a reforma administrativa de 1834 passou a ser apenas um entre os 13 concelhos que integraram o distrito de Braga, condenando-se a um papel secundário que nunca tinha sido o seu. A menorização de Guimarães em relação à capital do distrito não teve apenas efeitos na autoestima dos vimaranenses. Repercutiu-se, nomeadamente, no investimento público e no destino das contribuições cobradas no concelho — Guimarães era o maior contribuinte da região e agora via que os impostos que pagava eram colocados ao serviço do desenvolvimento de Braga, cidade de onde nunca lhe soprou bom vento.

No início da década de 1880, um grupo de vimaranenses, quase todos ricos, cultos e com profunda consciência social, cansados do fatalismo do atraso, da lamúria e da vida de mão estendida a Lisboa, deram corpo a um vigoroso movimento transformador com o objetivo expresso de quebrar o ciclo da estagnação e conduzir Guimarães à modernidade.

 

Algo de novo se movia no provecto Berço da Nacionalidade.

O primeiro ato deste movimento de cidadania foi a fundação, em 1881, da Sociedade Martins Sarmento, “promotora da instrução popular”, em homenagem ao erudito que dera a conhecer ao mundo a Citânia de Briteiros. A SMS seria a força impulsionadora de um singular e poderoso movimento de transformação da vida social, cultural e económica da cidade, nascido da conjugação de vontades dos cidadãos de Guimarães. Mas não foi um movimento espontâneo: foi o fruto do estudo e da imaginação com que se delineou um projeto inovador de elevação de uma comunidade pela cultura, pelo ensino e pelo progresso económico. Um projeto que está vertido nos textos programáticos dos intelectuais comprometidos da Sociedade Martins Sarmento, com destaque para Avelino da Silva Guimarães, hoje quase esquecido.

 

1884 seria o ano da mudança.

A pretexto da inauguração da ligação ao Porto por caminho-de-ferro, a SMS concebeu e promoveu a memorável Exposição Industrial, que serviu para demonstrar a necessidade de apostar na modernização do tecido económico e a urgência de se cumprir uma promessa inscrita na lei desde 1864, mas nunca concretizada — a criação de uma Escola Industrial. Organizada por uma vasta equipa liderada por Alberto Sampaio, a Exposição Industrial foi um enorme sucesso, com forte repercussão na imprensa nacional.

Em 1884, foi criada a Revista de Guimarães, a mais antiga revista científica portuguesa ainda hoje em publicação.

Em 1884, também nasceu O Comércio de Guimarães, jornal “liberal, comercial, industrial e agrícola”, que ainda hoje persiste.

Em 1884, a SMS lançou as bases do seu Museu Arqueológico, os vimaranenses tinham em curso a subscrição pública para financiar a estátua de Afonso Henriques e a igreja do Toural foi dada como concluída.

Em 1884, João Franco, um desconhecido do Fundão, imposto pelo Partido Regenerador, que nunca pusera os pés em terra vimaranense, foi eleito deputado por Guimarães. Inicialmente rejeitado, por ser estranho a Guimarães, depois desejado, seria sucessivamente eleito, ao longo de duas décadas.

Finalmente, o ano de ouro de 1884 viu cumprir-se o desígnio de uma geração: nasceu a Escola Industrial Francisco de Holanda.

1884 é o primeiro capítulo do grande livro da cidadania vimaranense. Uma obra construída com o espírito comunitário, o trabalho e o esforço económico das gentes de Guimarães. Umas vezes com a Câmara, outras apesar da Câmara, todos contribuíam para as causas de todos.

Um ano como aquele não se repete facilmente. Muito menos nestes tempos estranhos, em que quase tudo se municipaliza e a cidadania se esvai. Hoje sujeita a andar de mão estendida à disponibilidade e à boa vontade do protagonista que encarnou o papel de Grande Mecenas, o Município, a participação cidadã esmorece, “profissionaliza-se” e perde independência, inconformismo, autenticidade e capacidade de iniciativa.

140 anos depois, é tempo de revisitarmos o espírito dos homens de 1884.

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