O Futuro exige afirmação
Pela primeira vez desde que escrevo neste espaço, decidi abordar uma questão diretamente relacionada com o partido no qual sou militante. Faço-o com naturalidade, não por considerar que devam acompanhar particularmente a vida interna dos partidos políticos, mas porque acredito que há momentos que justificam uma reflexão mais profunda sobre os projetos políticos em que acreditamos e sobre os desafios que estes enfrentam.
No mês passado realizou-se, em Alcobaça, o 32.º Congresso Nacional do CDS-PP. Um congresso importante não apenas por ter reconduzido Nuno Melo na presidência do partido, mas principalmente por marcar o início de um novo ciclo com o objetivo de afirmação política do CDS. Mais do que uma eleição interna, o congresso representou uma oportunidade para fazer um balanço do caminho percorrido e refletir sobre o futuro.
Para perceber o momento atual, importa recordar o contexto dos últimos anos.
Em 2022, pela primeira vez na sua história, o CDS ficou sem representação na Assembleia da República. Muitos afirmaram ser o desaparecimento político de um partido fundador da democracia. Houve quem entendesse que o CDS tinha perdido definitivamente a sua relevância.
Foi neste contexto adverso que Nuno Melo assumiu a liderança do partido, num congresso realizado na cidade berço. A tarefa não era simples. Era necessário reorganizar estruturas, recuperar influência política e demonstrar que ainda existia espaço para um partido democrata-cristão, humanista e reformista na política portuguesa.
Dois anos depois, no congresso que decorreu em Viseu, em 2024, o partido apresentou aos militantes a moção “Tempo de Construir”. O título fazia todo o sentido, porque traduzia exatamente aquilo que o momento exigia: construir. Construir confiança. Construir credibilidade. Construir um caminho que permitisse devolver ao CDS a relevância política que historicamente sempre teve.
A verdade é que esse objetivo foi alcançado.
O CDS regressou à Assembleia da República. O CDS regressou ao Governo. Voltou a ter representação institucional: o presidente do partido assumiu funções como Ministro da Defesa e o CDS voltou a integrar o governo, participando num projeto político que venceu eleições e apresentou uma alternativa de governação aos portugueses.
Seria injusto e intelectualmente desonesto não reconhecer o mérito deste percurso. Independentemente das opiniões que cada um, inclusive eu próprio, possamos ter sobre as opções tomadas ao longo destes anos, os factos são objetivos: o partido conseguiu concretizar aquilo a que se propôs. Passou da ausência parlamentar à participação governativa.
Mas foi precisamente por considerar que essa fase foi cumprida que, durante a minha intervenção no congresso em Alcobaça, procurei transmitir uma mensagem de exigência.
Porque o desafio de ontem não pode continuar a ser o mesmo de amanhã.
A moção apresentada e aprovada neste congresso, intitulada “Tempo de Futuro”, parte de uma análise correta. O ciclo de recuperação foi conseguido. O partido voltou a ter representação, voltou a ter voz e intervenção política. Agora é necessário olhar em frente, demonstrar a identidade política do CDS e dar visibilidade às ideias que defendemos.
Apoiei a moção “Tempo de Futuro” com convicção, pois considero que representa a continuidade de um caminho que permitiu reerguer o partido. Contudo, também acredito que o momento atual exige algo mais do que continuidade.
Um partido com a história do CDS não pode viver permanentemente da celebração do seu regresso.
A Aliança Democrática foi decisiva num dos momentos mais difíceis da história recente do partido e continua a representar um projeto político para a estabilidade do país. Mas um partido com a identidade do CDS não pode conformar-se a uma existência politicamente diluída dentro de um espaço político mais amplo. Aliás, é através das suas ideias, dos seus princípios e das suas propostas que melhor poderá contribuir para o sucesso da própria AD.
Reconhecer o caminho percorrido não significa ficar preso a ele. Os resultados alcançados nos últimos anos merecem reconhecimento, mas não podem continuar a ser o centro do nosso discurso político. O desafio que hoje se coloca é outro: apresentar respostas para os problemas do presente e demonstrar aos portugueses que as ideias que defendemos continuam a ser úteis para construir o futuro. A relevância de um partido não pode ser avaliada apenas pelos cargos que ocupa, mas pela diferença que consegue fazer na vida das pessoas.
O país continua a enfrentar desafios que exigem respostas concretas. As famílias continuam pressionadas pelo aumento do custo de vida. A classe média permanece com uma carga fiscal excessiva. Apesar das medidas positivas implementadas pelo atual governo no âmbito do acesso dos jovens à habitação, a verdade é que a maioria continua a enfrentar enormes dificuldades para comprar ou arrendar casa. As empresas continuam confrontadas com uma burocracia excessiva. O Estado é demasiadas vezes lento para decidir e pesado para funcionar de forma ágil.
Acredito que é sobre estes temas que o CDS deve concentrar a sua ação política. É aqui que deve “ganhar músculo”, isto é, ter uma voz mais forte e presente no debate político, demonstrando o que o distingue dos restantes partidos.
Ao longo dos últimos anos, o CDS demonstrou que tinha condições para resistir quando muitos o davam como irrelevante. É por isso que considero que o verdadeiro sucesso da moção “Tempo de Futuro” não estará nos aplausos recebidos em Alcobaça. Estará na capacidade do CDS assumir um papel cada vez mais relevante no debate nacional.
Porque o futuro de um partido não se mede pela capacidade de recordar o passado. Mede-se pela capacidade de influenciar o presente, responder aos desafios do país e continuar a merecer a confiança dos portugueses. É precisamente por isso que olho para este novo ciclo com confiança. Não pela recuperação que já foi alcançada, mas pela convicção de que o CDS continua a ter ideias, propostas e um contributo relevante para dar ao futuro de Portugal.