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O Paciente Inglês, 1996.

Simone Oliveira
Opinião \ quarta-feira, abril 12, 2023
© Direitos reservados
Um livro nunca é só um livro. Um filme, nunca é só um filme. São espelhos. Às vezes, permitimo-nos olhar … outras, sequer ousamos encarar.

O Ocidente sempre teve uma intensa sede de deserto e uma absurda necessidade de guerra, como se a aridez desses espaços e a fugacidade eterna desses tempos, suplantasse um contínuo e quase absurdo medo de permanência.

Há séculos que, pequenas tribos anónimas de homens distantes, partem em busca de indefiníveis vontades, para um lugar onde o tempo é como o espaço, tão grande que não se repara nele. O sol cai num repente e surge depois no auge do céu, sem qualquer esforço de subida. As estranhas e fugazes tribos urbanas perceberam há séculos, que há lugares assim, Lugares onde a intensidade substitui as horas como a verdade substitui a sedução. Partem então, num qualquer amanhecer, inebriados pela contínua vontade de fuga, de descoberta, no limite, movidos por um trágico desejo de eternidade.

Partilham um espaço imenso e intemporal, capaz de os devolver à vida, ou então, de a retirar sem piedade, comungando a ausente arquitetura de um lugar feito de homens de figuras esquivas e sentimentos aparentemente vagos. São arquitetos de amores assentes em areias demasiado movediças para sustentarem sequer uma lágrima, quanto mais a vastidão de um sentimento. Autores de obras inacabadas e artistas de partituras que um dia desejam inventar, renegando então para sempre as músicas de uma civilização, que, sendo a deles, se tornou demasiado distante para a sentirem como sua. Então, reinventam tempos, crenças e épocas, escondendo-se em caminhos apenas por eles descobertos e vivendo as suas vidas longe dos malditos espelhos do mundo. Não se sabe para onde vão, desconhecesse de onde vêm, e vivem naquele limbo vacilante entre o absurdo desejo de descoberta e o aterrador medo da luz. Escondem-se na penumbra dos dias e perdem-se na imensidão de um espaço propício a grandes feitos, grandes amores, grandes descobertas, grandes perdas…infinitamente grande.


O deserto tem essa vastidão que se confunde com a cartografia da alma. É um espaço de estrangeiros e desconhecidos, feito de dias, ou somente horas, vividas a um ritmo próprio por aqueles que descobriram já, que o fim pode estar simplesmente a um palmo do rosto. A partilha da vida com essa pesada descoberta é muitas vezes a única companhia que se permitem ter e jamais serão felizes ao seu lado.

O deserto é, num primeiro momento, um ambivalente lugar de fuga e reencontro. O reencontro de uma cultura europeia perdida no imenso continente, de homens de línguas próprias e temperamentos distintos, de paixões e medos que se cruzam sem se chegarem a tocar sequer.


Mas é também um lugar de fuga, da fuga dissimulada de uma geração ou simplesmente de uma tribo feita de seres particulares que fogem dos tais espelhos do mundo e apenas se conseguem rever no olhar de alguns, daqueles, que lhes devolvem a única imagem por eles suportada, a de uma absurda necessidade de si mesmos, de um sufocante medo de permanência, de uma trágica ambição de eternidade. E os lugares trágicos, as épocas trágicas, convidam a imagens de igual crueldade e perdição. O deserto nunca foi um espaço de permanência e o amor exige - a. Talvez por isso, não se possa amar no deserto, ou no limite, talvez o mundo seja um lugar aterradoramente frágil para se amar.


Daí a partida e a fuga. Fogem das grades das relações humanas, das fronteiras físicas, fogem do deserto, fogem da guerra, fogem deles mesmos. Renegam imagens e quebram espelhos. Quebrá-los-ão eternamente. Por isso, reúnem-se em volta da tragédia, como se de uma grande fogueira se tratasse e partilham num espaço sem espaço, num tempo sem tempo, as palavras, somente as palavras que carregam vida fora. Todos as têm. Relatos de amores que ficaram por viver, de vidas que se escaparam entre os dedos, de lugares que jamais reencontrarão e certezas que carregam sem saber. São os opacos fantasmas de uma guerra, vivendo sob os seus escombros, respirando os seus odores, deambulando pelo estranho efeito que esta tem sobre as vidas. Aparta-as, desmembra-as, cobre-as de uma breve e doentia euforia, arrastando-as para uma mórbida melancolia de estranhos prazeres, quando chama a si, os filhos anónimos de Nações em ferida e lhes permite a única partilha possível: a da perda.

Até que ponto um território de silêncios pode despertar as mesmas sensações que um tempo de guerra? Respondem-nos a isso, com um mudo silêncio de inquietude: as amizades eternas que se criam; os medos inconfessáveis que se confessam; as paixões avassaladoras que se permitem viver; a mágica ausência do tacto, quando basta somente um toque; as traições que se ousam cometer em nome de sentimentos demasiado intensos para caberem no peito.

São tempos e espaços que os conduzem aos longínquos lugares da alma, lhes cruzam vidas, e os fazem crer que se um amanhã não houver nada importa, pois nada mais há para viver. A exaustão e a entrega, quando num derradeiro momento de rendição, doam aos que amam os fragmentos mortais dos seus corpos. Doam beijos e olhares, pele e sangue. Doam enfim a vida quando esta se tornou demasiado estranha para a sentirem como sua.

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