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O público que se perdeu

Inês Lago
Opinião \ quinta-feira, outubro 15, 2026
© Direitos reservados
É possível que o impulso da Capital Europeia da Cultura, tenha deixado muita coisa por calibrar. Algures nesse caminho perdemos parte do nosso público — aquele que sempre respondeu.

Discutiu-se muito este Verão aqui no burgo sobre a cultura da cidade. Disse-se, entre outras coisas, que o que era de uns poucos passou finalmente a ser de todos. Depois a conversa arrefeceu, como arrefecem todas estas coisas, e passou-se à frente. É por isso mesmo que lhe volto agora: as discussões travadas no calor servem para ganhar, as que se fazem à distância servem para perceber. Com as paixões mais calmas, vê-se melhor o que lá estava.

E o que lá estava merece ser olhado. A guerra era artificial, mas assentava num chão verdadeiro: há pessoas que se sentem excluídas de uma parte da cultura desta cidade. Convém separar as duas coisas, porque as guerras ganham-se e perdem-se, ao passo que os problemas podem resolver-se.

Guimarães construiu as suas marcas culturais a partir de dentro e, primeiro que tudo, para dentro. O Guimarães Jazz, os Festivais de Gil Vicente, a Feira Medieval, a própria ambição de ter um centro cultural — nenhum destes projectos nasceu a pensar em quem vinha de fora, e todos eles poderiam ter-se sustentado, até hoje, só com a presença do público vimaranense. Cresceram além muralhas por acréscimo, e não por desígnio. Cresceram porque as pessoas desta terra nunca faltaram à cultura. Nem ao bailarico. Haja saúde.

É por isso que a mágoa de tantos terá de vir de algum lado, e é preciso endereçá-la. É possível que o impulso da Capital Europeia da Cultura, que tanto nos deu, tenha deixado muita coisa por calibrar. Algures nesse caminho perdemos parte do nosso público — aquele que sempre respondeu, aquele que sempre compareceu. Chamar-lhe elitismo é uma maneira pobre de o dizer, e chamar-lhe guerra é pior ainda. O que aconteceu foi mais simples e mais grave: perdeu-se gente pelo caminho. E isso tem mesmo de ser resolvido.

Em abono da verdade, já começou a ser. O executivo anterior detectou o problema e respondeu-lhe, por exemplo, com o ExcentriCidade, levando programação e criação às freguesias em vez de esperar que as freguesias viessem ao centro. O actual executivo está a dar-lhe continuidade, e faz bem, porque não há razão nenhuma para não continuar o que funciona.

Quanto a erguer-se o João Baião como símbolo de seja lá o que for, não é coisa que verdadeiramente me apoquente. Já agora recorde-se que o homem foi actor de Carlos Avilez, e que é uma figura de postura democrática que escolhe levantar-se seis dias por semana para enfrentar as câmaras e um público imenso. Eu não conseguia. E quanto ao teatro de revista, não sejamos snobs: é uma instituição do teatro português e, sim, também merece um lugar em Guimarães. Que seja o melhor, então.

O que me interessa é saber o que se faz de todo o resto. E o resto é muito: é uma cidade inteira que sempre olhou a cultura da mesma maneira que sente as pedras da história: como sendo suas. Por isso mesmo, tem o direito de perguntar o que anda a ser feito dela.

Ora, a cultura em Guimarães são muitas casas. Sempre foram: é a iniciativa cultural privada dos vimaranenses que faz a história que nos trouxe até aqui, a este ponto em que temos de resolver algumas dores de crescimento — o que é bem melhor do que ter de inverter um definhamento, digo eu. E sendo a cultura em Guimarães construída pelos ímpetos dos seus desde que a história de Guimarães se conta, temos hoje, porque nos batemos por isso, uma casa comum – a nossa ágora cultural –, que a todos pertence e a todos deve dizer respeito: A Oficina. O Centro de Artes e Mesteres feito cooperativa, dependente da vontade do povo na figura dos representantes eleitos para a câmara municipal, que será sempre a primeira responsável pelo projecto que lhe incumbe cumprir.

E se a casa é de todos, cumpre-lhe olhar para todos. Sendo uma casa com tantos quartos, o que não falta são janelas por onde espreitarmos.

A sala maior é, obviamente, a da programação. Não é avisado analisar o efeito de ciclos de programação senão à distância temporal. Lembro-me, por exemplo, de um tempo não tão distante assim em que, habitando a capital do império, zénite cultural deste rectângulo, vinha ao berço — ao meu berço — ver espectáculos que se apresentavam aqui e não no sítio para onde eu fui morar, também para não perder esses mesmos espectáculos que julgava não poder aceder aqui. Foi um período de orgulho granítico, confesso. Mas isso de haver espectáculos que me faziam subir a casa morreu muito antes de eu voltar a casa. Podia ser triste; no entanto, consigo ver a crise de identidade necessária que se abateu depois da capital europeia. Isso, e haver menos dinheiro, claro. Fez-se caminho, solidificou-se o CCVF como sala de importância nacional e internacional, e esse caminho deve orgulhar-nos — mas é preciso saber o que se faz agora da estrada.

Mais discreto, o programa de educação e mediação leva todo o futuro do concelho às costas, com uma dedicação notável, desde o seu início. A Casa da Memória vai tacteando o seu caminho, e já percebeu que lhe cabe a função de trazer gente às gentes, sabendo que só isso nos salva, se é que há alguma coisa que possa salvar-nos — acreditar que sim devia ser lema da casa toda, e não apenas da memória. Os Fornos, com o peso de manter os mesteres que criaram a nossa ágora, têm mantido o barro vivo enquanto juntam as gentes para que sujem as mãos à volta de uma mesa. E o CIAJG vem cumprindo a sua missão original de guardião de um dos nossos gigantes e da sua ligação ao mundo; cumprindo isso, deve brincar. Tem brincado bem, parece-me, e levado a mediação a sério. Brinquemos, por favor.

Reparo numa coisa, quase chegados ao fim da visita. De cada um destes quartos sei dizer para que serve. Posso achar que um devia arriscar mais, que outro merecia melhores meios, que a outro falta ainda encontrar-se — mas sei nomear-lhes o ofício numa frase, e esse é o teste mais honesto que conheço para qualquer estrutura que todos nós pagamos. Não é um teste de qualidade nem de gosto. É só isto: se a casa fechasse amanhã, o que é que deixava de se fazer nesta cidade?

Sobra-nos o Teatro Oficina. Desse, falo para a semana.

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