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Para que serve um Teatro?

Inês Lago
Opinião \ quarta-feira, outubro 21, 2026
© Direitos reservados
Nada do que tem sido feito nos últimos anos justifica, para mim, a existência de um Teatro Oficina.

Ficou-me por responder, da visita que fiz há dias às casas da nossa ágora cultural, a pergunta a respeito do único quarto cujo ofício já não consigo enunciar numa frase. Vamos a ela devagar, começando pelo princípio, porque a sua história já é longa e os problemas já se fazem antigos.

Chamou-se primeiro ODIT, e foi morar para o Palácio de Vila Flor quando o Palácio de Vila Flor ainda era muito velho, ao lado das cantarinhas e dos bordados, mas debaixo de uma luz horrível, fluorescente, entre paredes quase sempre frias, quase sempre húmidas. Era preciso querer mesmo muito estar ali, quando tudo começou, e assim continuou a ser por muito tempo. A ODIT fazia espectáculos com as pessoas da terra, e algumas dessas pessoas são hoje profissionais de teatro em carreira activa. Dessa leva, saíram directores de teatros nacionais e tudo.

Quando passou a chamar-se Teatro Oficina, chamou actores profissionais de fora e continuou a fazer espectáculos com as gentes daqui — e, outra vez, algumas dessas pessoas são hoje profissionais de teatro em carreira activa. Uma grande parte das outras são hoje, ainda, público da casa.

Depois veio a vontade de elevar a estrutura, de a tornar muito profissional, e nessa elevação deixou de haver lugar para as gentes da terra. Logo a seguir, mandaram-se os actores embora, e tenho para mim que sem actores não existe uma companhia, mas posso estar enganada. Houve mais tarde quem tentasse corrigir alguma coisa, trazendo de volta os artistas daqui à criação dentro da casa; no entanto, alguma coisa aconteceu e o projecto partiu-se em cacos. Veio a seguir o mundo confinado. E depois vieram tentar arejar a casa, pintaram as paredes e abriram as portas. A vontade era boa, mas não chegou para a continuação. As portas voltaram a estar fechadas a tempo quase inteiro.

Estamos na era dos ciclos curtos. E, ao mesmo tempo, exigimos metas que só o conhecimento alcançado por ciclos mais longos permite atingir. Se alguém conseguir fazer sentido desta cidade no espaço de um ano, enquanto carrega a obrigação de apresentar um projecto teatral que a sirva durante os dois da comissão de serviço, pago-lhe o jantar. É sobre-humano. Eu fui tirar uma licenciatura de propósito para nos perceber melhor e ainda assim, de vez em quando, fico banzada. Adiante.

O problema não são as pessoas: ninguém constrói um projecto, uma linha de actuação e um público no tempo que leva a aprender os nomes dos técnicos. Pelo caminho, o Teatro Oficina pôs-se a jeito de ser apenas uma sucessão de bons nomes que não deixam nada para trás quando batem a porta — e isso não é culpa de nenhum deles. É culpa do desenho. Uma companhia pede mais do que ocupação de espaço.

Daqui decorre uma pergunta que deve ser feita. O que é, hoje, o Teatro Oficina? Companhia já não é: deixou de o ser no dia em que deixou de ter actores a tempo inteiro, ainda que vá produzindo um ou dois espectáculos por ano. No entanto, salvo raríssimas excepções, cumpre dizer que os espectáculos que se têm feito poderiam ter sido criados aqui ou noutro sítio qualquer. Programação não precisa de ser, porque já existe o ofício de programador para as artes performativas n’A Oficina. Resta a formação anual, que é real e que tem feito gente. Mas chega a formação para sustentar uma estrutura com nome próprio, orçamento próprio e direcção artística própria?

Digo-o, enquanto formadora e colaboradora d’A Oficina, como alguém que vive em parte daquilo que está a pôr em causa: nada do que tem sido feito nos últimos anos justifica, para mim, a existência de um Teatro Oficina. Ou temos a coragem de o extinguir, passando os recursos para onde façam falta, ou teremos de pensar a sério na razão de o manter vivo. O que não se pode é mantê-lo por inércia, que é a maneira mais cara de deixar morrer uma coisa.

Eu acho que há razão para o manter, e é a própria história da casa que a dá. Tudo o que esta estrutura produziu de duradouro veio da mesma prática: fazer teatro com as pessoas da terra. Foi isso que se perdeu quando a casa se profissionalizou, e é isso que mais nenhuma estrutura de Guimarães pode fazer. Um centro cultural programa, e deve programar. Uma companhia municipal pode semear — e se não semeia, não se percebe para que serve.

Durante algum tempo achei que o espaço do Teatro Oficina tinha de abrir-se inteiro à comunidade e incentivar a criação independente. Entretanto percebi que era necessário incentivar primeiro a independência, que algures se desfez. Quando comecei a fazer teatro, aqui, eram muitos os grupos de teatro amador. Os recursos hoje disponíveis aos artistas amadores vimaranenses são, esses, inestimáveis. Mas com tantos meios disponíveis ao artista individual, a necessidade de criar colectivamente parece ter-se perdido pelo caminho. Guimarães, e muito concretamente A Oficina, tem oferecido aos artistas vimaranenses, profissionais e amadores, condições para a prática muito superiores às que existiam há vinte anos. Isso é bom. Mas muito menos são os que aproveitaram essas condições para criar algo de responsabilidade inteiramente sua. Quanto aos amadores, isso é muito visível: já praticamente não há grupos. Há apenas actores, que esperam pelas oportunidades de serem dirigidos pelos vários projectos disponibilizados ao longo do ano. E, apesar de serem muitas as oportunidades, não chegam a todos. Neste processo, tem-se perdido gente, aumentando lentamente uma brecha de incompreensão entre quem está dentro e quem olha ao longe.

Deixo então uma hipótese, que é apenas minha e que haverá certamente quem melhore. Talvez faça mais sentido que o Teatro Oficina deixe de ter o seu centro de gravidade na Avenida D. João IV e passe a existir também onde as pessoas estão: um clube de teatro em cada freguesia, por exemplo. Não oficinas avulsas nem cursos somente para os melhores, mas grupos, com nome e com continuidade, acompanhados ali mesmo, ao lado dos coros, das bandas e das colectividades que esta região tem em quase todo o lado. E talvez valha a pena inverter o sentido da formação — que os formadores e os artistas vão ao grupo, em vez de os melhores elementos do grupo virem ao edifício.

Depois, trazê-los ao centro. Que subam ao palco grande, em condições dignas, com luz e som a sério. O que acontece a seguir não é invenção minha; é coisa que esta cidade já viu acontecer. Quem sobe ao palco costuma trazer a família, os vizinhos, às vezes a freguesia inteira, gente com interesse directo no que se vai ver porque ali está alguém seu. E, tendo entrado uma vez, o edifício deixa de ser-lhes estranho. Alguns hão-de voltar por outro motivo qualquer; uns poucos talvez venham a ser o público das próximas décadas; e um ou outro, como aqui já aconteceu, há-de acabar por fazer disto profissão.

Ao mesmo tempo, manter as portas abertas, deixar entrar a luz até que com ela voltem as pessoas. Habitar profissionalmente uma casa aberta a todos. Quem sabe, já que estamos a sonhar, voltar a ter uma companhia.

Nada disto se pensa em dois anos. Se a cidade decide manter o Teatro Oficina, que o faça com um mandato longo e uma missão escrita — e que se meça o que importa, que não é a enchente mas a penetração: vimaranenses distintos, de que freguesias, quantos entraram pela primeira vez, quantos voltaram. Quantos se emanciparam. Nenhuma bilheteira o demonstra.

O público não se conquista de uma vez; mantém-se, ao mesmo tempo que se renova. É caudal, e não depósito. Se insisto nisto com alguma teimosia, será porque me aconteceu: houve nesta cidade um grupo de teatro amador que me deixou entrar, e foi daí que veio tudo o resto. Não terá sido só comigo.

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