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PopulusRIP

José Cunha
Opinião \ sábado, dezembro 04, 2021
© Direitos reservados
Em Guimarães, existe uma estratégia cada vez mais evidente de criar a perceção de um município exemplar nas questões ambientais, comunicando ações e projetos com nomes indecifráveis.

O título deste texto, apesar da aparente falta de sentido, pretende ter um duplo significado que coincide com as duas linhas de pensamento deste texto: (1) homenagem fúnebre aos Choupos tombados no campo de batalha entre o Homem e a Natureza; (2) falta de sensibilidade e ação ambiental encoberta por uma comunicação criativa e prémios balofos.

O primeiro significado é bastante óbvio pois junta aos choupos (Populus) a homenagem (R.I.P. - rest in peace) que lhes é devida pelos serviços que nos prestam e pela injustiça com que são tratados. Na verdade, o choupo tem valor estético, o seu porte e quantidade de folhas sequestra CO2, contribui para a regulação da temperatura e do ruído, para o ciclo da água, e para a qualidade do ar pela captura de poeiras em suspensão. O choupo, sendo parte do habitat de abelhas e aves, é também parte relevante da biodiversidade dos ecossistemas urbanos.

Apesar de todos estes préstimos, existem cerca de duas semanas no ano em que os choupos largam um “algodão” que, sendo parte do mecanismo de sobrevivência da espécie e resultante de um longo processo evolutivo, não levou em conta o fator “Homem”, e, tragicamente, essa forma de reprodução é o motivo para a sua aniquilação. Este “algodão, para além de ser materialmente incómodo, está erradamente associado às alergias ao pólen, motivando reclamações e exigências para o seu abate, que, quando encontram insensibilidade e falta de coragem na entidade que faz a gestão do arvoredo urbano, resultam numa sentença de morte para os choupos.

Ainda assim, há municípios (e.g. Odivelas) que emitem comunicados a explicar que o “algodão” não é o responsável pelas alergias, concluindo que “assim, não se revela necessário o abate ou poda de árvores que não causam problemas de saúde, antes pelo contrário, auxiliam na depuração da atmosfera.” Em Guimarães, e, apesar de todo o discurso do querer ser “mais do que verde”, a opção foi abater os Choupos numa cedência às pressões desinformadas, mas sem contudo o admitir, e criando a perceção de uma ação justificável, planeada e inofensiva para a qualidade de vida na cidade.

Através de comunicado a Câmara Municipal fez saber que se trata do abate e substituição de árvores que ocorrem “quando efetivamente as árvores estão em acentuado declínio ou apresentam problemas estruturais”, que foi tudo feito “de acordo com as normas de boas práticas para o arvoredo urbano”, e que houve “recolha de um conjunto elevado de observações e parâmetros sistematizados que permitem uma caracterização bastante exaustiva de cada indivíduo”.

No entanto, o município não divulgou nenhuma dessa informação técnica nem deu qualquer aviso prévio, conforme estipula o recente Regime Jurídico de Gestão do Arvoredo Urbano. Quem vê no terreno o que aconteceu não tem grandes dúvidas de que se tratou de uma caça ao choupo.

Em Guimarães, existe uma estratégia cada vez mais evidente de criar a perceção de um município exemplar nas questões ambientais, comunicando ações e projetos com nomes indecifráveis que em Guimarães ninguém conhece, mas que, apesar dos questionáveis resultados locais, são “trabalhados” no papel e exportados como casos de sucesso e premiados como boas práticas, resultando em autoelogios de “excelência” e “referência para a Europa e para o Mundo”.

Nesta senda de comunicação fantasiosa, PopulusRIP poderia muito bem ser o nome de um projeto a incluir na estratégia da biodiversidade municipal, e apesar de não passar de um arboricídio, com alguma criatividade até ganhava um qualquer prémio.

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