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Memórias de um Velho Nicolino, por Frederico Gonçalves

Redação
Sociedade \ terça-feira, novembro 23, 2021
© Direitos reservados
O Jornal de Guimarães vai publicar, entre este domingo e sexta-feira, artigos de opinião acerca das Festas Nicolinas escritos por diferentes autores. O terceiro fica a cargo de Frederico M. Gonçalves.

Fui convidado a remexer na minha caixinha de memórias Nicolinas pelo meu amigo Rui Gomes, presidente da minha querida ACFN. Remexer nestas memórias obriga-me a fazer um exercício de “puxar a fita” atrás aproximadamente 20 anos e trazer à tona todas as memórias, assim como, os sentimentos tão intensamente vividos nos anos em que, orgulhosamente, fiz parte da comissão de festas Nicolinas. Mas, para falar de Nicolinas tenho de recuar ainda mais. Tenho de recordar os anos em que ainda nem sequer tinha espinhas na cara e ficava deslumbrado ao ver aqueles rapazes mais velhos (alguns já de barba rija) de capa e batina, ou simplesmente de camisa branca e mitra, com uma autoridade capaz de mover uma festa como o Pinheiro. E aqui, nesta fase, não me posso esquecer da minha querida avó Micas que durante alguns anos, de mão dada, me levava aos Palheiros para ver passar os estudantes, segundo ela dizia. Nessa semana a minha avó era a minha heroína, pois cometia a heresia de levar uma criança de tenra idade ao pinheiro, a altas horas da madrugada, com as ruas recheadas de rapazes bem bebidos. Só mais tarde percebi que o principal motivo da D. Maria da Luz era vigiar o meu tio Hugo que por lá andava. O meu tio Hugo (com idade para ser meu primo) foi o autor do desenho (Mickey) do meu primeiro tambor, oferecido precisamente pela avó Micas. Antes de ir para casa da minha avó, a minha alegria e ansiedade era tanta que não dormia na noite anterior. Ali, no passeio dos palheiros, eu era uma criança feliz por poder estar entre os mais velhos, mas, mais importante do que isso, era o que aquele dia me fazia sonhar: “quando eu for grande quero ser assim!”. Regressava a casa carregado de sonhos. É nestes anos que nasce a vontade, o anseio, mas ao mesmo tempo o receio, de um dia pertencer a uma comissão de festas. Sim, porque pertencer a uma comissão de festas não era para qualquer um. Era só para os de barba rija!

Indubitavelmente, as Nicolinas fazem parte da minha vida! Acredito plenamente que desde então até aos dias de hoje há um “cheirinho” a Nicolinas em tudo o que faço. Porque é mesmo verdade aquilo que se diz: pertencer à comissão de festas Nicolinas é uma escola de vida. Forma-nos enquanto homens e cidadãos. A mim formou-me!

Já com algumas espinhas na cara comecei por pedir ao meu pai para me oferecer uma caixa “à séria”, até porque já parecia mal reunir com os amigos no fim das aulas com um tambor com o Mickey desenhado na pele. Tive de aguardar… A caixa só seria oferecida quando entrasse para o 7º ano, dado que esse era o primeiro ano de liceu nos tempos de estudo do meu pai, apesar de eu continuar a estudar no João de Meira. Porém, a insistência foi tanta que o meu pai, em Novembro de 1997, decidiu presentear-me com a minha primeira e única caixa. (Sim, ela dura até hoje e já tem tantas histórias para contar…). Aquele dia foi épico. Aquilo por que tanto almejava estava a tornar-se realidade. E ainda só ia na caixa… Ainda havia um longo caminho a percorrer para cumprir o sonho do miúdo que estava nos palheiros com o tambor do Mickey.

 

2001 foi o ano da minha entrada no mítico Liceu de Guimarães. Os corredores impunham respeito e o recreio lá atrás, ainda mais. Começavam as primeiras Nicolinas de pleno direito, uma vez que já era aluno do ensino secundário de Guimarães. É escusado referir que não falhei um ensaio, nem uma moina. Afinal de contas, a caixa já estava a ser preparada desde o início de Setembro. E é num ensaio, na entrada do Liceu, que o presidente da comissão (um senhor de barba rija), o Alemão, me diz: “Miúdo, para o ano quero ver-te na comissão! Estás em todos os ensaios, por isso p’ro ano quero ver-te aqui!” Meu deus! Aquilo soube-me tão bem! Era tudo o que eu queria ouvir!Era o convite de que eu precisava para poder entrar naquele submundo restrito, cheio de segredos e só ao alcance de muito poucos.

Completado o ano de caloiro do Liceu, era evidente o passo seguinte: começar a convencer os meus pais que o seu filho queria entrar no tal submundo dos restritos. Já vi as Nicolinas passarem por muitas fases, umas boas, outras menos boas. Naqueles anos, contrariamente ao que sucede hoje – e ainda bem – os membros da comissão de festas não eram vistos com bons olhos pela sociedade. Tinham-se passado anos de muitos exageros, com muitas faltas às aulas e, consequentemente, com muitos chumbos. É, portanto, natural que uma mãe não quisesse que o seu filho fosse o protagonista de tantas histórias que corriam pelas vielas de Guimarães. Para ajudar ao processo em casa, decidi falar com 2 amigos que sabia que eram, também, fervorosos pelas festas, o Nando e o Jorge Marques, pois achei que assim fosse mais fácil convencer a minha mãe. Bom, na verdade, a companhia o Jorge e do Nando serviam para minorar o medo – o medo do desconhecido. Deste modo, foi discutido entre os 3 qual o melhor discurso a ter em casa, de modo a obtermos a carta de alforria. É claro que a reposta ouvida de rajada foi um NÃO! (nada que não estivesse à espera). Cabia-me agora a mim tentar reverter esse não. Graças ao meu sentido de persuasão consegui transformar um não em silêncio... Um silêncio que me fez ir caminhando e ir alimentando o sonho, porque, na verdade, os ditos populares têm sempre razão: “quem cala consente”. Hoje reconheço que o silêncio da minha mãe funcionou mais como uma provação à minha natural imaturidade. Ela própria quis ver até onde eu ia no silêncio dela, pois sabia que, apesar de não querer ver o seu filho nas tais histórias, há muito sabia que aquilo era importante para mim e era até um passo importante na minha afirmação e formação enquanto jovem. Agradeço-lhe por isso.

 

Chegou setembro de 2002! Mas aquele início de ano letivo em nada se parecia com os anteriores. Eu sabia que aquele ano seria diferente. E é precisamente num desses dias que sou abordado, nas escadas do liceu, pelo Rui 27, na altura um conhecido meu e que tinha pertencido à comissão de 2001. Mais uma vez sou incentivado a entrar para comissão… Os argumentos eram os mesmos que já tinha ouvido durante aquele ensaio nas Nicolinas de 2001, mas desta vez era mais real. O Rui avisou-me que a comissão de 2001 estava a preparar-se para passar a pasta e a eleição era dali a dias. Na verdade, eu nem sabia que havia eleições, nem tão pouco qual o método de seleção, mas tinha uma certeza: queria pertencer à comissão de festas de 2002. O Rui informou-me que iria integrar novamente a comissão de festas e queria contar comigo - isso para mim bastava.

Na última 6ªfeira do mês de setembro, tal como mencionava o edital afixado no liceu, deu-se a eleição no jardim do Carmo. Compareci à hora marcada, juntamente com os 2 amigos, o Jorge e o Nando. Ali percebi que aquela cerimónia seria uma coisa simples e rápida, dado que chovia copiosamente e apenas estavam lá aqueles que, tal como eu, queriam pertencer à comissão, além do Chico Jesualdo que estava encarregue de dirigir a eleição. Éramos, se não estou em erro, precisamente 10 candidatos, já contando com o presidente (Rato) e o tesoureiro (Rui 27), que vinham da comissão de 2001 e estavam “naturalmente” escolhidos. Uma vez que os presentes completavam uma comissão, a única coisa que ali se decidiu foram os cargos, uma mera formalidade porque depois foi tudo alterado pelo presidente. Pois é, na comissão de festas o presidente é quem manda e pode tudo!

Estava tudo acertado para começar e uma semana após a eleição havia encontro marcado às 8:30 da manhã, em frente ao tribunal. Íamos fazer o primeiro peditório…pela primeira vez eu iria sair de casa trajado com capa e batina. O dia tinha chegado! O menino do bombo do Mickey estava agora de capa e batina… só não tinha barba rija! Com o nó da gravata feito de véspera, com o traje engomado, a camisa branca da cor do frigorifico, a capa bem dobrada, com gel no cabelo - assim saiu de casa o novo membro da comissão de festas. Desci a av. D. João IV como se tivesse 2m de altura – sentia-me o tipo mais feliz à face da terra. Que orgulho!

Na Mumadona tive o primeiro choque. O presidente compareceu à hora marcada e em meio segundo disse quais eram as tarefas: “Hoje vamos fazer peditório em Fafe. Três de vós vêm comigo no carro, com o Russo. Quanto aos outros encontrámo-nos lá.” Graças a S. Nicolau, eu fui um dos escolhidos para ir no Ford Orion do Russo, mas os outros não tiveram alternativa de por pés ao caminho e estender o polegar. Este episódio serviu para perceber o que o futuro nos reservava. Aquilo que nos diziam em casa afinal ali não fazia sentido: tínhamos mesmo de andar a boleia, porque de outra forma não tínhamos como nos deslocar para os peditórios e havia horários para cumprir. Passámos o dia inteiro em Fafe e o dia seguinte em Felgueiras. Nunca tinha calçado sapatos em dias consecutivos, quanto mais fazer dezenas de km com eles. Afinal isto era mesmo para os de barba rija.

O Ford Orion e o Russo foram os nossos companheiros durante as Nicolinas de 2002. Quando a chuva não perdoava ou não arranjávamos boleia, a troco de 5€ “p’ra gota” a solução era ligar ao Russo para trazer o Ford Orion. O problema é que anoitecia cedo e o Orion não tinha luzes. A solução encontrada era ligar um foco ao carregador de isqueiro e o pendura iluminava a estrada. Que aventuras.

 

Após duas semanas de peditórios - todos os dias fazíamos peditório depois das aulas até às 21h30/22h – estava completamente exausto. A bolhas eram mais do que os dedos dos pés, a cabeça não descansava e o corpo estava dormente… Como é que podia sentir-me assim se estive tantos anos à espera deste momento? A frustração começou a toldar-me os pensamentos e a decisão estava tomada. No dia seguinte informaria o presidente que iria desistir e antes informaria a minha mãe do que iria fazer. A resposta da minha mãe foi tão surpreendente como objetiva. Rapidamente apelou ao meu sentido de responsabilidade e ao meu sentido de compromisso, apesar de estar desejosa que eu abandonasse, pois há duas semanas que não via o filho. Aquelas palavras eram tudo aquilo que eu precisava para ter forças para continuar. Depois disto nada mais me faria desistir e tantos foram os desafios…. Percorremos dezenas de km a pé, varremos o concelho de Guimarães de lés a lés, apanhámos litros de chuva pelo pescoço a baixo, tivemos fugas épicas a cães raivosos, apanhámos boleias inesquecíveis, levamos com dezenas de portas na cara, fomos apelidados dos adjetivos mais hediondos que a humanidade já conheceu, tudo…. Passamos por tudo, mesmo! (Nem tudo se pode contar…) Mas, também, constatamos realidades que para mim eram desconhecidas até então. Desde a pobreza visível na casa das pessoas, às ruas ainda sem qualquer tipo asfalto, o gado solto no meio da estrada, etc… Mas encontrei pessoas muito generosas. Nunca na minha vida me vou esquecer do peditório do dia 1 de Novembro de 2002. Nesse dia – dia dos finados – a comissão faz a sua primeira aparição à cidade e vai ao cemitério prestar homenagem aos velhos nicolinos que já faleceram. A romagem ao cemitério era feita bem cedo, mas antes ainda havia o ponto de encontro na torre dos almadas para levantar a bandeira e um “pequeno almoço” para tomar no Paraxut. O pequeno almoço era vinho com cerveja e açucar para dar força para o resto do dia… À vinda do cemitério havia nova paragem no Paraxut, para a reposição de níveis. Na noite desse dia, o presidente manda-me fazer peditório em Gondar, mas eu estava de rastos. A manhã e a tarde desse dia eram para aqueles de barba rija e eu estava ko. A muito custo arranquei para Gondar, à boleia. Já em Gondar, as pernas não correspondiam àquilo que o cérebro mandava executar, até que numa porta de uma casa humilde uma senhora me convida para entrar, porque seguramente o meu aspeto não devia ser o mais saudável. Não tinha como recusar o convite… eu estava mesmo de rastos! Pensava eu que a senhora me ia dar um banco e um copo de água, mas quando entramos na cozinha ordenou que o marido se chegasse para um canto porque a mesa de dois ia dar para três. Colocou-me um prato de sopa quente à frente e disse-me: “Come meu menino, vai-te fazer bem”. Aquela senhora salvou-me! Aquela sopa deu-me a força necessária para continuar o peditório e regressar a Guimarães, porque ainda me esperava uma reunião. Era 6ª feira. A comissão reunia à 6ª feira. E o dia estava tão longe de terminar…

 

Outro peditório que não me posso esquecer foi aquele em que encontramos o nosso amuleto. Numa tarde em que não tinha aulas, fui fazer peditório com o Rui 27 na estrada nacional Fafe-Guimarães. Numa certa casa, fomos muito mal recebidos pela mulher que nos abriu a porta e, por conta da sua arrogância e má educação, roubei-lhe as cuecas vermelhas que tinha no estendal a secar. Ao jantar, resolvi transformar aquelas cuecas no nosso amuleto e contar a história aos restantes membros da comissão. Disse-lhes que aquele objeto nos ia proteger de cães, cavalos, homens, mulher, maus tratos… tudo. A partir daquele momento estávamos protegidos por aquele objeto… pelas cuecas vermelhas! Então, o combinado era cada um de nós andar com as cuecas no bolso da batina durante uma semana e passava o testemunho a outro membro na semana seguinte. Todas as semanas as cuecas tinham o seu guardião, que era responsável pela preservação das mesmas. O castigo para quem as perdesse ou as estragasse ou as usasse era bem duro. Passados 2 meses de peditórios, o nosso amuleto, as nossas cuecas, foram enterradas juntamente com o pinheiro de 2002. Elas, tal como nós, chegaram até ao fim. Espero que os meus amigos, companheiros de comissão não se chateiem por ter contado esta história tão bizarra.

São estas memórias que nos fazem ter o tão famigerado “espirito Nicolino”, que ninguém sabe explicar o que é, mas que se sente.

São estas histórias que me fazem ter umas saudades loucas desses anos! E sempre que chega o frio de Novembro, uma onda de nostalgia paira sobre mim. Eu só preciso de os ver… Os rapazes da comissão e os estudantes. Isso faz-me recuar no tempo e ver quanto aquilo foi bom para mim.

Agradeço a todos que se cruzaram comigo e continuam a cruzar, agradeço aos meus pais por tudo o que passaram e por todos os exageros que tiveram de aturar e, naturalmente, à minha comissão de festas de 2002: Ao Rato (presidente), ao Rui 27 (tesoureiro), ao Jorge Marques (secretário), ao Bento (1ª Vogal da Academia), ao Fernandinho (2º vogal da Academia), ao Paulo (1º vogal de festas), ao Nando (sub-chefe de bombos) e ao Pedro (chefe de bombos).

Não podia deixar de lado a comissão de festas de 2003 da qual também tive a honra de fazer parte. Sim, a experiência em 2002 foi tão boa que decidi repetir a dose. Porém, nesse ano, já sabia ao que ia. Já conhecia os cantos à casa e já não existia o medo do desconhecido e o receio das histórias que fazem com que o 1º ano seja especial. Ao Jorge (presidente), ao Insider (vice-presidente), ao Maia (secretário), ao Pi (1º vogal da academia), ao Migas (1º vogal de festas), ao Igor (2º vogal de festas), ao Chico (sub-chefe de bombos) e ao Pedro (chefe de bombos), um abraço a todos vós.

E, por fim, um beijinho muito grande à minha avó Micas – a eterna avó e heroína do menino do bombo do Mickey.



Guimarães, 19 de novembro de 2021

Frederico M. Gonçalves

Vice-Presidente 2002; Tesoureiro 2003

Sócio nº 53 da ACFN

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