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O Clube Mulheres do Atlântico quer “criar um espaço para todo o mundo”

Pedro C. Esteves
Cultura \ sexta-feira, agosto 26, 2022
© Direitos reservados
Da "inquietação" de Hannah Bastos nasceu um clube de leitura voltado para literatura africana e afrodiaspórica produzida por mulheres. A nordestina está ainda dentro do Minha Poetry Slam.

Hannah Bastos criou um clube de leitura em Guimarães, porque “fazia falta” um espaço “lúdico, mas crítico, de conversa, que mostrasse visões do mundo e perspetivas diferentes”. Nasceu, assim, o Clube Mulheres do Atlântico, um clube de leitura voltado para literatura africana e afrodiaspórica produzida por mulheres. O clube é fruto de uma ideia de “inquietação” e de questionamento: “Porque é que não estudamos outras literaturas”, as de vozes que vão para além do “cânone branco europeu?”

Hannah sabe que o Clube Mulheres do Atlântico é “muito específico”. Mas nasce de um “incómodo” latente. “Eu, como mulher negra imigrante, que estudo grande parte de literatura produzida por mulheres, também sou escritora e incomodava-me não levar estas vozes até outras pessoas. Percebi que as pessoas as desconheciam. Não era falta de interesse, era mesmo falta de conhecimento”, explica.

O primeiro encontro foi presencial e aconteceu no CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquietura, mas Hannah percebeu que o interesse extravasa as fronteiras do concelho. Por isso, tem optado por sessões mistas. O clube lê um livro por mês e está agora aberto o 2.º ciclo de leitura: depois de um primeiro dedicado “ao lado de cá do Atlântico”, a partir de setembro pergunta-se o que significa ser afrodescendente nas Américas. Para ajudar a responder, vão ser lidas obras de Conceição Evaristo (Brasil), Teresa Cárdenas (Cuba) e Alice Walker (Estados Unidos da América).

O clube criado no início do ano quer também incentivar o regresso ao livro, até porque faltam hábitos de leitura em Portugal – em 2020, 61% dos portugueses não leu qualquer livro. “A literatura tem ficado para poucos, e o objetivo deste clube é criar um espaço para todo o mundo. No fundo, criar um espaço democrático. Só que um espaço democrático requer muita coisa e uma delas é fazer com que as pessoas se apaixonem novamente pela literatura e se revejam nela”, indica a nordestina que vive em Guimarães há sete anos.

 

Um slam para ouvir o que as pessoas têm para dizer

Mas há mais sementes que Hannah está a plantar para fomentar o “sentido cultural”. Está também “dentro” do Minha Poetry Slam, um dos projetos vencedores da segunda edição do open-call do Bairro C. Poetry Slam é o nome dado às batalhas de poesia falada que “têm democratizado o acesso à literatura”. Nesta aventura de trazer um slam à cidade-berço, conta com a escritora Manuela Bezerra de Melo e a produtora cultural Caroline Bampa.

“Este é um projeto muito importante para nós, enquanto corpos imigrantes em Guimarães. As estruturas de espaço cultural, de espaço literário, são muito rígidas, muito grandes e muito fechadas dentro delas mesmas. Repete-se mais do mesmo, por isso temos noção de que este projeto é muito caro; é uma semente plantada aqui em Guimarães para fomentar o sentido cultural e crítico dos espaços públicos em Guimarães; é promover esse circuito literário democrático, é trazer pessoas, corpos”, explica.

Guimarães vai colocar sob o holofote, no dia 27 de agosto, na Plataforma das Artes, vozes dissonantes. “O slam tem essa vertente de trazer pessoas que estão fora do centro hegemónico. É trazer essas pessoas e dizer que podem falar e ser ouvidas. Queremos saber o que têm para dizer”.

Ao princípio “estava com medo” – e não era por dúvidas quanto ao projeto, mas sim pelo desconhecimento que pudesse existir em relação à prática. “Mas saiu ao contrário”, indica. “As inscrições voaram, há pessoas de Guimarães – dois – o que é extraordinário”, ressalva. Para além de convidados, uma das preocupações era assegurar a representação local. “Isto é também para as pessoas e para o público vimaranense. Estamos abertos a todo o mundo e quanto mais gente melhor, mas tem um gosto especial saber que temos competidores de Guimarães”, explica. Hannah adianta que um dos participantes é “um senhor de Guimarães com 60 ou 70 anos. “Isso é extraordinário, é o mais puro da democracia e desta primeira semente plantada”.

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