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2024, um ano de muitos riscos

Sara Martins Silva
Opinião \ sexta-feira, janeiro 26, 2024
© Direitos reservados
Falta aos portugueses sentido crítico e analítico. Tendemos a viver a política como se de um clube de futebol se tratasse, acreditamos sempre na versão que favorece o “nosso” clube/partido.

O novo ano chegou com velhos problemas e não augura nada de bom. O Global Risks Report 2024 do Fórum Económico Mundial alerta para um cenário de riscos onde a capacidade de adaptação do mundo está no seu limite e o desenvolvimento humano a refrear.

Este relatório, feito a partir da auscultação de mais de 1.400 especialistas em riscos globais, decisores políticos e líderes da indústria traz uma perspetiva negativa para o mundo, e com tendência a piorar, Estados e indivíduos estão mais vulneráveis a novos e velhos problemas.

A desinformação e propagação de informação falsa são apontadas como o principal risco para 2024, o ano com mais atos eleitorais de sempre, com 2 mil milhões de pessoas a serem chamadas às urnas para escolherem os seus representantes[1]. Estados Unidos, Rússia, Índia, Venezuela, Reino Unido, União Europeia são alguns exemplos dos atos eleitorais que em 2024 poderão mudar o xadrez do mundo (não obstante alguns deles não se realizarem de forma livre e justa).

A insegurança gerada pela instabilidade financeira e a ascensão da Inteligência Artificial são dois fatores que muito contribuem para a proliferação de mentiras e notícias falsas, geradoras de conflitos e responsáveis por uma polarização da sociedade cada vez mais acentuada. A manipulação da opinião pública pela desinformação e divulgação de fake news com fins eleitoralistas já provou ser eficaz, e é já vista como uma nova forma de guerra entre Estados.  2024 é, por isso, um ano crucial para a democracia e para o mundo como o conhecemos.

Em Portugal, contra o que seria expectável após a maioria absoluta do Partido Socialista em 2022, e do que deveria ser um tempo de estabilidade política, teremos também eleições. Os muitos riscos associados à proliferação de notícias falsas e de desinformação, combinados com a forma como os portugueses veem e pensam a política, tornam a nossa democracia vulnerável e ameaçam condicionar o resultado eleitoral.

Falta aos portugueses sentido crítico e analítico. Tendemos a viver a política como se de um clube de futebol se tratasse, acreditamos sempre na versão que favorece o “nosso” clube/partido, por muito estapafúrdia que seja, e fechamos os olhos às mais escandalosas faltas dos “nossos”. Votamos sempre nos mesmos porque “não sou vira casacas” e porque “sempre votei nesta cor”, mesmo que na maior parte das vezes desconheça o programa político e ache que o candidato é um hipócrita incompetente. 

Agarramo-nos a casos e casinhos de escárnio e maldizer, discutimos à exaustão as questões éticas e morais da atuação dos políticos, como se a ética e a moral fossem conceitos maleáveis. E acatamos. Acatamos este modo de fazer política, que lentamente mata um país, sem sentido crítico, sem exigir mais a quem de direito, cegos por uma clubite que divide e alimenta a proliferação de notícias falsas e a desinformação.

Até ao dia 10 de março teremos variedade de estórias e escândalos, muitas serão mentiras veladas e propositadamente colocadas, muitas não terão qualquer importância ou impacto no desenvolvimento do país. Os minutos de propaganda serão dedicados a discutir a moral do adversário e a difundir narrativas epopeicas criadas para esconder o facto deste país estar à beira do colapso, ao invés de discutir políticas públicas sérias e estruturais que revertam o quadro atual de degradação dos serviços públicos e de instabilidade económica, social e demográfica. Daqui a 20 anos, ninguém se lembrará do Porsche que foi vendido para não dar imagem de “menino do papá” ou da licença de construção da casa de Espinho, mas sofrerão na pele as dificuldades de um país que não soube pensar a longo prazo e preparar-se para os muitos desafios que já se avistam.

 

[1] Dados do Instituto Centro para o Progresso Americano

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