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A entressafra do pelotão

Ilda Pereira
Opinião \ segunda-feira, outubro 16, 2023
© Direitos reservados
Aquele “desconectar” faz-se por novas conexões, especialmente a prática de outros desportos (caminhadas, corridas, trail, escaladas, motociclismo, piscina, pilates, etc.)

Planos de treino, calendários de corrida, deslocações, planos de nutrição, treinos complementares, tudo isto acrescido à rotina pessoal e profissional – a época das nossas ciclistas leva-as a um dia-a-dia diferente da população comum. 

Mas chegou outubro e com ele a off season. Então, o que é que elas fazem quando a longa temporada termina e os dias de stress são substituídos por um pouco de mundana tranquilidade? 

A #3 Volta a Portugal Feminina foi o prenuncio do fim das competições e o período de entressafra começou. Porém, desengane-se o leitor: este não é um momento completamente tranquilo porque é também o início dos preparativos para a próxima temporada. Enquanto umas gozam agora umas merecidas férias, viajam, estão com os amigos até altas horas, outras aproveitam para ficar por casa, em família, dedicar mais tempo aos estudos e à atividade laboral de sustento. Esta quadra é aproveitada para a família e amigos, para relaxar, para desconectar mental e fisicamente dos dias divididos do calendário sobre rodas. A duração do intervalo depende da ciclista, mas geralmente descansamos por cerca de 2 a 4 semanas.

Mas, como disse, esta entressafra marca uma rutura e um novo começo. Assim, aquele “desconectar” faz-se por novas conexões, especialmente a prática de outros desportos (caminhadas, corridas, trail, escaladas, motociclismo, piscina, pilates, etc.) e o contacto com outras pessoas, outros lugares.  As ciclistas que não conseguem ficar sem as bicicletas fazem passeios tranquilos com os amigos, onde não há pressão para o desempenho ou optam pelo btt para se divertirem fora dos seus percursos habituais de treino nas montanhas. Este tempo pode servir igualmente para recuperar de lesões persistentes.

Como disse, assim que uma temporada termina, a próxima começa e este período de entressafra é muito importante para a mente e para o corpo. Nesta estação há mais tempo para pensar, para cuidar da “bateria mental” e recarregá-la totalmente para que se possa ter o melhor desempenho possível na próxima temporada. Um dos aspetos que auxilia neste processo é a alimentação e o descanso: esta é uma ocasião em que as ciclistas não precisam pensar muito sobre o que comem, o que também ajuda a relaxar a mente; não estão preocupadas com as horas das refeições, as calorias a ingerir, os períodos de recuperação, as horas e a qualidade do sono, etc.

Imagino que a este ponto o leitor se questione sobre as consequências deste “aliviar o acelerador”, deste “tirar o pé” (como se diz na gíria). No ciclismo, como na vida, tudo faz sentido! É certo que a aptidão física diminui durante o período de entressafra. “O volume sistólico do coração diminui, os músculos perdem força e há uma queda significativa na função mitocondrial. No entanto, o tempo de folga é essencial para a recuperação, pois é a única forma de as células e o sistema nervoso se regenerarem totalmente”. Contudo, já reparou que este não é um período de total passividade: é aquilo a que se pode chamar de “recuperação ativa”. Aquelas atividades que substituem a intensidade específica do ciclismo em época vão, gradualmente, dando lugar a um trabalho estruturado e gradativo (em volume e intensidade) que prepara o que há de vir, sendo o “trabalho de base” que auxilia na construção da próxima época, colocando-nos prontas para quando acelerarmos o ritmo na primavera.

Corpo e mente. Será tudo? Este tempo de “recolhimento” também abre espaço a que as ciclistas planeiem o ano que vem. É o momento em que pegam na caneta e no papel e (algumas com a ajuda profissional de um Coach) elaboram um “Plano de Ação” para os seus objetivos, respondendo a perguntas poderosas: como vou competir: individual ou numa equipa? quando começa a época? quais as corridas alvo? existem maneiras de melhorar a dieta? Entre outras que permitem planear o ano inteiro com antecedência. Quanto mais organizada a ciclista é, maiores são as probabilidades de sucesso na próxima época.

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