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A pá da cooperativa

Diogo Nuno Mesquita
Opinião \ terça-feira, abril 21, 2026
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Garantiu que haveria várias disponíveis porque todas seriam confiscadas aos seus donos – ninguém devia depender da sorte de ter nascido com possibilidade de ser dono de uma pá para poder trabalhar.

A cooperativa queria apropriar-se da minha pá. Disse-lhe que precisava dela para trabalhar e respondeu que pá para trabalhar eu teria. Não mais seria a minha pá, mas poderia usar a mesma, que passaria a ser de todos. Seria a pá da cooperativa, da qual se apropriaria. Propriedade privada não haveria porque não permitiria.

Perguntei à cooperativa como faria para poder trabalhar quando quisesse, sendo a pá de todos e ficando limitado à sua disponibilidade. Garantiu que haveria várias disponíveis porque todas seriam confiscadas aos seus donos – ninguém devia depender da sorte de ter nascido com possibilidade de ser dono de uma pá para poder trabalhar.

Eu tinha aquela pá há anos, mas só a tinha há tanto tempo porque sempre a estimei. Era o meu ganha-pão, e por isso precisava de saber se manteria as condições necessárias para me poder continuar a servir enquanto ferramenta de trabalho. Para isso, os outros também teriam de a tratar bem quando a utilizassem. A cooperativa assumiu que se a pá fosse de todos seria do interesse de cada um estimá-la. Eu insisti em querer saber como poderiam garantir que todos pensavam e agiriam dessa forma – se, como eu, estimavam as próprias coisas, e, ainda mais pertinente, continuariam a estimá-las quando estas passassem a ser de todos, não sendo de ninguém. Não era esse o exemplo que conhecia do comportamento das pessoas. E já que eram de todos, talvez se tornasse tentador o favorecimento de alguns requisitantes em detrimento de outros. A cooperativa reconheceu que o favorecimento era injusto e não devia acontecer, mas não se alongou mais.

Depois pensei no futuro, e questionei como seria feita a reposição de pás ao longo do tempo devido ao previsivelmente acelerado desgaste por mau uso e provável descontrolo sobre o seu paradeiro (o que não é de ninguém é sempre mais propício a desaparecer). Informaram que, não havendo mais pás para se apropriar, a reposição seria feita mediante o aumento das contribuições dos requisitantes. Era contraditório pedir mais a quem passava a produzir menos, por isso insisti em querer saber como é que, nesse caminho da precariedade, iríamos fazer para comer quando a rutura chegasse. Segundo a cooperativa, iriam agilizar um subsídio para quem não conseguisse trabalhar. Explicaram que iriam financiar esse subsídio através do património dos ricos, que também seria apropriado. Lembrei-os de que nessa altura deixaria de haver ricos – alguns fugiriam, levando o que tinham, e outros deixariam de o ser depois da intervenção da cooperativa. Para além disso, mais tarde, esses futuros ex-ricos também ficariam à espera do prometido subsídio porque nem eles teriam o que comer sem pá para trabalhar. E depois, quando se esgotasse esse património – metade mal gasto, e a outra desaparecida como as pás – como seria?

A cooperativa gritava que o que importava era a cooperativa, que éramos todos. Era contra a iniciativa privada, a propriedade privada, o livre mercado e o capital. Expliquei-lhes que as pessoas já pagavam muitos impostos e a maioria preferia continuar assim para poder manter parte do que era seu e trabalhar, mas não era possível. A cooperativa é que sabia o que era melhor e estava contente assim. Por isso, como éramos todos, estávamos todos contentes.

Inspirado no documentário Torre Bela (1975), de Thomas Harlan, retrato exemplar do pós-25 de Abril e da Reforma Agrária em Portugal.

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