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Quando Guimarães acordar

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, maio 30, 2023
© Direitos reservados
Talvez tenha chegado a altura de, em conjunto, pensarmos Guimarães a partir desta premissa. Ou de definir objectivos futuros tendo a consciência daquilo em que falhamos.

Um cartaz recentemente colocado pela JSD de Guimarães na Alameda Alfredo Pimenta tem vindo a gerar bastante polémica. Ali podemos ver reproduzidas declarações do antigo Presidente da Câmara, Dr. António Magalhães, em que este se mostra preocupado com o crescimento de Guimarães. Debaixo da referida citação está escrito: “Acorda, Guimarães”.

A iniciativa da JSD remente-nos para duas dimensões diferentes que se cruzam: o alerta deixado por aquela organização partidária e o anacronismo do design gráfico do cartaz (a que me referirei adiante).

Guimarães está de facto parada no tempo em muitas das suas dimensões. A prova do que escrevo encontra-se nos infrutíferos debates que há vários anos ocupam recorrentemente o espaço público. O comboio, a ligação às Taipas/AvePark, a incapacidade de atrair investimento diversificado, a falta de solos para as grandes indústrias, a pedonalização de parte do casco velho da cidade, a necessidade de lojas âncora, o tipo de turismo que queremos, a mobilidade e muitos outros temas são apenas alguns exemplos de questões que se discutem há vários anos (em alguns casos há décadas!).

Entretanto o Mundo mudou. Está em marcha uma revolução tecnológica e social. Em poucos anos a mobilidade irá mudar radicalmente. A consciencialização ecológica terá cada vez mais peso na vida e nas escolhas das pessoas. As indústrias que temos (e as que dizemos querer atrair para o nosso concelho) serão algo muito diferente do que conhecemos hoje. Muitas das nossas lojas passarão a funcionar como pontos de recolha ou de showrooms (em 2022 mais de 40% dos portugueses fizeram compras online). Uma parte significativa da forma como acedemos aos bens culturais e consumimos cultura mudou. O tecido laboral irá mudar. A Inteligência Artificial (IA) vai estar presente em diferentes aspectos das nossas vidas. A IA vai acabar com certos trabalhos e modificar radicalmente outros. E cartazes com um grafismo bastante superior àquele colocado pela JSD já podem ser feitos às centenas pela IA em poucos minutos – o que nos remete para uma dupla leitura do cartaz (uma mensagem sobre o futuro feita com um design anacrónico).

Estas mudanças tecnológicas de que falo não são ficção científica. Estão a acontecer neste preciso momento. E a autarquia até já identificou muitos destes pontos e trabalha neles. Contudo, parece não se mostrar capaz de acompanhar o ritmo dos acontecimentos e menos ainda de os antecipar.

O sociólogo Marcel Mauss, referindo-se às “sociedades primitivas”, terá dito que uma sociedade se caracteriza mais por aquilo que deixa de fora do que pelo que é capaz de absorver. A frase adapta-se facilmente a outros contextos, como por exemplo a vida das instituições ou das empresas. E faz todo o sentido usá-la para reflectirmos sobre o futuro do nosso concelho. Talvez tenha chegado a altura de, em conjunto, pensarmos Guimarães a partir desta premissa. Ou de definir objectivos futuros tendo a consciência daquilo em que falhámos.

Daqui a uns anos, quando Guimarães acordar, saberemos se está no futuro ou se ficou presa a um passado do qual não se conseguiu libertar. 

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