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Dos “mijados” à geringonça – alcunhas de coligações e governos

Francisco Brito
Opinião \ sábado, novembro 13, 2021
© Direitos reservados
São diversos os casos em que alianças improváveis ou fações antagonistas (dentro do mesmo partido) foram brindadas com as mais variadas designações.

Em Portugal sempre foram dadas alcunhas a certos movimentos e a alguns entendimentos políticos, fruto de uniões tidas como improváveis. A última solução governativa que uniu PS, CDU e BE foi disso um bom exemplo. Vasco Pulido Valente apelidou-a de “geringonça”. Paulo Portas ajudou a popularizar a expressão e o nome ficou, sendo usado com agrado, orgulho ou simples resignação por alguns dos elementos dos partidos que a formavam.

São diversos os casos em que alianças improváveis ou facções antagonistas (dentro do mesmo partido) foram brindadas com as mais variadas designações.

Passemos a alguns exemplos.

Em 1836, em pleno “Setembrismo” (um período de grande agitação política), os liberais mais radicais eram apelidados de “mijados” ao passo que os mais moderados (os “cartistas”) eram conhecidos por “chamorros” (nome dos partidários de Castela em 1383-85) ou “devoristas” (alcunha que advém do facto de se terem apropriado de parte dos bens públicos quando chegaram ao poder). Nesse período, um governo efémero liderado pelo Marquês de Valença ficou conhecido pelo “Gabinete dos Mortos”.

Por esta altura o jornalista José de Sousa Bandeira (fundador do primeiro jornal publicado em Guimarães) popularizou uns versos que passariam a designar os governos de coligação partidária (conhecida por “fusão”): “um pasteleiro queria/fabricar um pastelão/e porque tinha de tudo,/deu-lhe o nome de fusão” (Vasco Pulido Valente, que se interessava por estes assuntos, diz que Sousa Bandeira se inspirou nuns versos espanhóis, que satirizavam um governo da década de 30). Os termos “pastel”, “pastelão” e outros semelhantes sobrevieram às décadas de 30 e 40 do século XIX e, daí em diante, passaram a servir para designar e apoucar os governos de “fusão”.

Dentro dos partidos também podemos encontrar alguns exemplos curiosos de alcunhas dadas a tendências e movimentos divergentes. O Partido Histórico (um dos principais partidos da Monarquia Constitucional, fundado em 1852) tinha duas facções antagonistas, cada uma com a sua alcunha: a “unha branca” (mais à direita e disposta a aceitar coligações) e a “unha preta” (mais à esquerda e menos aberta a cedências e uniões).

Na I República, e no contexto da I Guerra Mundial, foi criado um governo que unia o Partido Democrático de Afonso Costa e o Partido Evolucionista de António José de Almeida (um partido de matriz mais conservadora). O casamento ficou conhecido pelo nome algo pomposo de “União Sagrada”.

Já na década de 80 do século XX ficou célebre uma facção do Partido Socialista que tinha por ponto de encontro o sótão de uma casa de António Guterres. Os militantes que frequentavam aquelas reuniões ficariam conhecidos como “o grupo do sótão”.

Mais recentemente, os apoiantes e simpatizantes governo que uniu o PSD ao CDS na coligação “Portugal à Frente” (PAF) eram tratados nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais online por “pafiosos” (a expressão parece não ter tido grande eco fora da internet). O tempo presente trouxe-nos a já referida “Geringonça”, que foi perdendo peças até ao chumbo do OE e nos conduziu a novas eleições.

O novo acto eleitoral trará por certo uma nova relação de forças no Parlamento e, quem sabe, uma nova coligação. Se para alguns a grande preocupação é saber que solução governativa se irá encontrar, para outros, mais levianos e mais preocupados com as pequenas coisas, a dúvida reside na designação ou alcunha que será dado ao “governo das janeiras” (expressão que já corre a propósito deste inesperado acto eleitoral). Aceitam-se apostas.

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