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Guimarães
03 abril 2025
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Caminho sem Sonho

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, abril 01, 2025
© Direitos reservados
No Minho morre-se de fome, morre-se de trabalho, morre-se de pouco resguardo contra as intempéries do clima.

Na “Fototeca de Guimarães” (repositório do incansável trabalho de Nuno Saavedra) têm vindo a ser publicadas um conjunto de imagens bastante interessantes de Jorge Marçal da Silva (1878 – 1929). Em 1919 e 1920, o fotógrafo procurou captar o quotidiano das Taipas e das freguesias vizinhas (Ponte, S. Martinho e S. Lourenço de Sande, Barco e Briteiros). As imagens mostram-nos duro trabalho dos lavradores e dos artífices da região. Nas fotografias de Marçal da Silva podemos encontrar paisagens bucólicas, o sorriso espontâneo uma criança e locais belíssimos, hoje difíceis de reconhecer. Mas é o olhar desconfiado da criança no trabalho ou os pés descalços e as mãos enrugadas e enegrecidas do fuseiro que nos fazem parar para pensar.

Fonte: Fototeca de Guimarães 

Fotografia de Jorge Marçal da Silva (1878-1929)

S.Tomé de Caldelas, 12 de Setembro de 1919

Arquivo Municipal de Lisboa 

As imagens de Marçal da Silva remetem-nos para vários textos escritos alguns antes. Um deles é a tese “O Concelho de Guimarães” (1907) de João Monteiro de Meira (1881 – 1913). Neste trabalho, Meira faz o contraponto às descrições idílicas e bucólicas do Minho que escritores como Ramalho Ortigão, D. António da Costa e José Augusto Vieira tinham feito no passado. Em linhas cruas, João de Meira descreve-nos assim o Minho de então:

“O Minho é uma decoração pastoral onde se representam tragédias. Aquela casinha além, vista de longe, no pendor da encosta, com o seu muro caiado, a sua horta de couves, as suas árvores envidadas, a sua cancela vermelha, tem um ar virgiliano que atrai. Entra-se. Dentro é um horror. Na lareira uma só panela, onde ferve um magro caldo. Ao lado, entrapado em farrapos, um homem, um monte de carne que já teve forma humana, agoniza há vinte anos coberto de úlceras repelentes. É um leproso. Há disto aos centos pelo Minho.”  Sobre a vida das classes populares acrescenta: “O povo, esse, ontem como hoje, sempre passou a vida rilhando côdeas muitas vezes enjeitadas pelos cães e, de carne, sabe apenas que há um homem chamado carniceiro, que a vende em lojas que se chamam talhos. [O Minho] é uma região maldita, onde um trabalhador do campo ganha um tostão por dia, e onde um kilo da carne mais ínfima, sulcada de veias e retalhos de tendão, custa entre dez e treze vinténs. (…) No Minho morre-se de fome, morre-se de trabalho, morre-se de pouco resguardo contra as intempéries do clima.”

Pela mesma altura n’ “Os Pobres” (1906) Raul Brandão questionava: “Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados para cavar, para que lhes dêem um pedaço de pão e só se deitam no sepulcro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome”.

Anos antes, no jornal “O Burgo Podre” (1902/1903), Eduardo de Almeida tinha posto a nu a triste realidade vimaranense. Descrevia Guimarães como uma cidade repleta de “criancinhas cheias de pulgas”, onde uma indústria exploradora era “um sorvedoiro de miseráveis, uma fábrica de alcoolismo e prostituição”.  

As fotografias de Jorge Marçal da Silva ilustram na perfeição os escritos científicos de Meira, as análises políticas de Eduardo de Almeida ou a literatura de Raul Brandão.

A oposição entre o romantismo (e o pitoresco) e o retrato científico, realista ou expressionista não terá sido apenas estética ou fruto de novas correntes científicas, literárias ou artísticas. Pode ter sido em parte uma questão geracional (muito embora escritores como Camilo e publicações de grande circulação como o “Archivo Pittoresco”, tivessem partilhado relatos do mundo da pobreza e do trabalho – que, nesses tempos, eram palavras sinónimas). Pode ter sido também uma questão de percepção e apreensão da realidade: João de Meira acusa Ramalho Ortigão de ter analisado o Minho “na imperial de uma diligência”. A experiência de um médico (Meira) que entrava nas casas dos pobres contrastava de forma cabal com a visão de um diletante (Ramalho) que apenas as contemplava à distância (na verdade, estes dois mundos, o dos pobres e o dos outros, raramente se misturavam).  E pode ter sido ainda uma simples questão de empatia. Afinal, quantos de nós reconhecemos hoje aqueles que ao nosso lado percorrem um “caminho sem sonho”?

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