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Chegar sem mérito, partir sem honra

Sara Martins Silva
Opinião \ quinta-feira, março 21, 2024
© Direitos reservados
O PS é muito forte na criação de narrativas. Cria versões da história que lhes são sempre favoráveis e repetem violentamente até parecer verdade.

Escrevo em dia de reflexão. Amanhã o país vai a votos e, quando ler estas linhas teremos já uma nova composição na Assembleia da República. A imprevisibilidade do resultado é grande e, não podendo fazer futurologia sobre estas eleições, façamos um olhar retrospetivo da herança que o ex-Primeiro-Ministro (PM) António Costa deixa ao país.

António Costa chega a secretário geral do Partido Socialista (PS) após uma atitude pouco cavalheiresca para com António José Seguro. Foi eleito com 96% dos votos no dia seguinte à detenção de Sócrates. Embora tenha feito parte do governo de Sócrates, enquanto ministro de Estado e da Administração Interna, sempre se demarcou deste e das suspeitas que sobre ele recaem, com o chavão “à justiça o que é da justiça”.

E é precisamente as voltas com a justiça que irá marcar o percurso de António Costa que chega a PM depois de perder as eleições. Uma jogada de bastidores que apanhou os portugueses de surpresa. A geringonça fez Portugal guinar a uma esquerda demasiado acentuada. A mesma esquerda que censura o diálogo aberto e esclarecido sobre determinados temas e que diaboliza a iniciativa privada, esquecendo-se que é esta quem sustenta o Estado democrático.

António Costa, para ser primeiro ministro teve que ceder aos desígnios ideológicos de uma esquerda alucinada que ainda vive numa URSS utópica. O fim das parcerias público privadas (PPP’s) na saúde e dos contratos de associação na educação, foram resultado dessa visão retorcida sobre a iniciativa privada e da absurda guerra do Estado contra partes da sociedade, como se o Estado não fosse/devesse ser uma construção social representativa de toda a sociedade. Com estas medidas que, diziam ser para salvar a escola e a saúde pública, perdeu a escola e a saúde pública e perdeu o país. Nunca os colégios privados tiveram tantos alunos e nunca tantos portugueses tiveram seguros de saúde como agora, o que mostra que a esquerda faz mais pela iniciativa privada do que pela qualidade dos serviços públicos.

A ânsia (ou ganância) de ser PM fez António Costa ceder ideologicamente a princípios que o PS (e muito provavelmente ele) não acredita, afinal as PPP’s na saúde foram uma medida de António Guterres em 2001, no governo em que António Costa era ministro da justiça.

Se no primeiro mandato António Costa foi refém do Bloco e do PCP, no segundo mandato a paciência durou pouco mais de 2 anos. O chumbo do orçamento de 2022 foi o motivo que o fez bater com a porta e libertar-se do jugo dos partidos mais à esquerda.

O terceiro mandato tinha tudo para ser a oportunidade de António Costa mostrar a sua qualidade como Estadista e reformador. Uma maioria absoluta e uma bazuca de dinheiro europeu são as condições ideais que qualquer governante deseja. Em vez disso, foram pouco mais de 20 meses marcados por 13 demissões no governo, escândalos políticos, suspeições de corrupção e dinheiro não declarado nas prateleiras da residência oficial do PM, contestação nas ruas e caos nos serviços públicos, consequência da má gestão ideológica dos anos anteriores.

O PS é muito forte na criação de narrativas. Cria versões da história que lhes são sempre favoráveis e repetem violentamente até parecer verdade. Nos últimos dias de António Costa como PM, a versão que circulou foi a de que é uma vítima da justiça que persegue os socialistas. A verdade é que a demissão do Costa foi a atitude mais digna que tomou. Daqui a 100 anos a História não vai lembrar António Costa como um grande estadista, ou sequer como um bom governante dado o estado em que deixa o país. A verdade é que ele chegou ao poder sem mérito, e sem ganhar eleições, e caiu com uma maioria absoluta e sem honra. Karma dirão….

[ndr] artigo originalmente publicado na edição de março do Jornal de Guimarães. 

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