Como me vão convencer que a magia não existe?
Já ia em criança ao estádio D. Afonso Henriques, de mão dada com o meu avô. Lá subíamos, fim de semana sim, fim de semana não, a Avenida de Londres rumo ao estádio do nosso Vitória para o calor de um jogo que não era apenas um jogo – não para quem lá estava a assistir. Não para mim. Todo aquele exagerado sentimento que não fazia sentido, mas num sítio onde não era preciso que fizesse. Foi lá que conheci a emoção do futebol.
Um dia mais tarde vi este estranho jogador; vestia a camisola do Barcelona e parecia diferente de todos os que já tinha visto. O tempo parava quando ele tinha a bola nos pés. Fazia-se silêncio para a genialidade não se assustar e ele lá ia, desenfreado, a saltar como uma pulga, num equilíbrio impossível a deixar adversários para trás. Era brilhante. A bola parecia um prolongamento do seu pé esquerdo e, quando a soltava, emprestava-lhe os olhos para ela não se perder no caminho. Ninguém via o que ele via e por isso era imparável, com um dom que só podia ser divino. Argentino, como Maradona, chamavam-lhe Messi. Achava-o mágico, mas não. Diziam-me que não podia ser. Que a magia não existia e em Portugal havia outro. Um mais alto, mais forte, mais completo, melhor de cabeça, que saltava mais, marcava golos com a direita e com a esquerda. Também era mais trabalhador e por isso mais merecedor de admiração. Contavam-me que o argentino era artificial – tinha sido injetado em miúdo para crescer porque era demasiado pequeno – tratava-se de um produto de laboratório e, como era reservado, até tinha uma considerável dose de autismo e outra síndrome qualquer. Só jogava bem porque estava numa superequipa e por isso não tinha o mesmo valor do português Ronaldo.
Ao início fiquei hesitante e comecei a duvidar do que viam os meus olhos, mas garantiam-me que um verdadeiro patriota devia achar o português melhor sem se questionar. O problema era que o queixo teimava em cair com o inacreditável a que assistia cada vez que o via jogar. Não que o outro fosse mau, nada disso, mas raramente conseguia entender a comparação. Estranhava que as métricas consideradas para a definição do melhor fossem sendo alteradas, mas diziam-me sempre que era o que fazia mais sentido para a avaliação ser justa nesse momento. Inicialmente, o que contava era a Bola de Ouro – houve uma altura de grande equilíbrio, em que alegavam ser a prova de que eram praticamente equivalentes, sendo Ronaldo mesmo assim o melhor. Mas depois começou a criar-se um fosso a favor do Messi (8-5) e, quando achei que finalmente se podia reconhecer o que sempre desconfiei ser a realidade, explicaram-me que afinal o prémio que contava mesmo, até porque não dependia da votação de jornalistas, jogadores e treinadores, era a Bota de Ouro. Esse sim, resultava da melhor performance individual. Quando o definiram como métrica principal, Ronaldo estava em vantagem e por isso ficava claro para todos qual dos dois era de facto o melhor jogador. Mas também essa acabou por se esfumar (6-4). Desta vez já fiquei hesitante antes de assumir que o debate passaria a favorecer o Messi, e com razão. Percebi que se procurava uma alternativa e adiantei-me: propus que se contabilizassem quantos campeonatos tinha ganho cada um no tempo que se defrontaram em Espanha, mas imediatamente rejeitaram a ideia – não fazia sentido nenhum –, até porque Messi jogava numa superequipa e à de Ronaldo, apesar de ser uma equipa super, faltava qualquer coisa. Sem dizer nada, fui verificar que Ronaldo só tinha ganho 2 campeonatos em 9 anos... se calhar o que faltava era o Messi, pensei para mim. Foi então que definiram que o que dava mesmo um estatuto diferente eram os troféus internacionais. Após a conquista do Euro 2016, por Portugal, estava finalmente anunciado o melhor jogador. À data, Messi contava com 4 finais perdidas pela Argentina (1 Mundial em que foi considerado o melhor jogador do torneio e 3 Copa América em que, no total, marcou 8 golos, fez 8 assistências e foi o melhor jogador do torneio em 2015). Tinha ganho o mundial Sub-20 e a medalha de ouro nos jogos olímpicos de 2008, mas diziam-me que isso não contava. Não era líder nem tinha personalidade, ao contrário de Ronaldo, que reunia todas as condições para ser considerado o melhor de acordo com as métricas em vigor nessa altura. Posição reforçada pela Liga das Nações conquistada por Portugal em 2021. Convenciam-me que havia um antes e um depois de Ronaldo na seleção; que ganhou sozinho essas competições a carregar a equipa às costas. Ainda tentei alertar que a Liga das Nações era um troféu inventado pela UEFA para comercializar jogos amigáveis, mas insistiam que era uma grande competição. Também estranhei que em nenhuma das conquistas tivesse sido considerado o melhor jogador do torneio, mas o que me diziam tinha de estar certo e não devia questionar a sua influência.
Foi a partir daí que a magia começou a bater mesmo a sério e a coisa com a seleção argentina deu-se, e de que maneira: colegas de equipa a darem a vida pelo ídolo, que viam como um deus do futebol e mais um pibe do bairro ao mesmo tempo. Só visto e para quem aprecia coisas boas – ganharam finalmente a Copa América em 2021, contra o grande rival Brasil, em pleno Maracanã (4 golos, 5 assistências, melhor jogador do torneio); em 2022, a Finalíssima (outro troféu de chacha) contra o campeão europeu para depois escancarar as portas do Olimpo com a conquista do Mundial (7 golos, 3 assistências, melhor jogador do torneio) – carreira que nem sonhada podia sair tão bem. Desde a pressão de ser comparado a Maradona, à exigência de um país inteiro para o qual chegou a ser vilão por não conseguir ganhar, até ao realizar do maior sonho. Mas até aquele que era o sonho de tantos passou a não ser assim tão relevante – as métricas voltaram a alterar-se e o Mundial passou a ser apenas uma competição de 6-7 jogos. Aliás, explicaram-me que o Europeu passou a valer tanto como o Mundial e por isso as conquistas de Ronaldo por Portugal continuavam a ser mais impressionantes que as de Messi pela Argentina. Em 2024, Messi voltou a conquistar a Copa América e em 2025, Ronaldo ganhou mais uma Liga das Nações.
Ficou a disciplina e a capacidade de trabalho – diziam-me que Ronaldo foi o que se fez sozinho contra aquele a quem tudo caiu do céu, como se fosse possível que Messi não tivesse tido uma vida de sacrifícios e dedicação extrema para chegar onde chegou. Até esse argumento caiu perante a longevidade e graciosidade com que envelheceu o seu futebol. E restou a última tentativa de forçar uma ideia ensandecida, sendo 1000 golos o objetivo final. Instalou-se a narrativa de que o campeonato Saudita, onde Ronaldo apostou as últimas fichas para atingir essa meta, era de facto competitivo: um dos melhores do mundo, e por isso os golos eram tão válidos como todos os outros que marcou, ou até mais difíceis. A insistência na comparação ilusória com o melhor jogador de todos os tempos, como se fosse possível comparar um grande marcador de golos a um génio do futebol, foi fatal. E o mais engraçado é que Messi não precisava de ter marcado um único golo na carreira para ser melhor jogador de futebol que Ronaldo, mas na realidade até tem melhor rácio de golos por jogo. A verdade é que o português foi um grande jogador. Um dos melhores marcadores de golos que o futebol já viu, que aliou a isso, em determinados momentos, uma excelente capacidade de progressão com bola e de criação de oportunidades de golo. Qualidades mais do que suficientes para ser, no mínimo, o melhor jogador da sua geração. Mas não. Da sua geração fizeram parte 3 dos melhores jogadores de sempre, num só: Messi, o finalizador; Messi, o driblador; e Messi, o criador de oportunidades de golo. Quem o diz são as estatísticas, mas para se ter a certeza, o melhor é ver um jogo e comprovar a magia a acontecer.
Esta comparação tornou-se numa loucura com contornos distópicos, estimulada por fatores extrafutebol e campanhas de marketing que tentavam manter viva uma rivalidade que, apesar de útil ao desporto-rei, nem sempre teve fundamento. Imagino o desgaste causado pelo nível de obsessão necessário para lutar contra o que é mágico, e há mérito nisso. Mas quando a disputa se começa a basear numa questão de narcisismo, perde-se o sentido da competição. Este final de uma carreira que foi, de facto, extraordinária, é uma pena. O discurso de vitimização e a mania da perseguição por jornalistas e opinião pública são o sinal da derrota, e a desculpa para conceber que alguém o tenha superado tão largamente. A verdade é que, com o tempo, a realidade impôs-se e dissiparam-se as dúvidas – jogadores, treinadores, jornalistas e qualquer um que acompanhe futebol – sabe que Messi não tem comparação. Foi uma alegria ter seguido a sua carreira. Tem sido emocionante assistir a cada passo deste merecido final glorioso. É graças a ele que nunca me convenceram que a magia não existe.