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Cultura e ciência em Guimarães nos séculos XVIII e XIX

Francisco Brito
Opinião \ segunda-feira, janeiro 09, 2023
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É possível afirmar com segurança que em Guimarães e na região, nos séculos XVIII e XIX, existiam Academias Literárias, Gabinetes de Leitura e livrarias. Uma pequena elite frequentava e alimentava estes círculos e um dos seus membros tinha até um “Laboratório químico” em casa.

Quem se interessa pela história do século XVIII e XIX já terá encontrado algumas afirmações (pouco fundamentadas) sobre a inexistência de sociabilidades culturais, científicas e lúdicas fora dos grandes centros urbanos. Creio que estas asserções decorrem mais da leitura de certas obras literárias (em que Camilo e Eça se destacam) do que propriamente da investigação histórica. O morgado ocioso e inculto, o frade fanático, o bacharel ignorante e o idiotismo do “brasileiro de torna viagem”, enchem as páginas da nossa melhor literatura onde estas personagens ganham vida na pasmaceira das cidades de província, numa aldeia no meio de nenhures ou em incursões mais ou menos longas pela capital e pelo estrangeiro. Muito embora a literatura de uma determinada época seja uma boa fonte de investigação, não podemos esquecer que, não raras vezes, as descrições literárias são apenas estereótipos que podem ou não corresponder à realidade.

É possível afirmar com segurança que em Guimarães e na região, nos séculos XVIII e XIX, existiam diversas bibliotecas particulares dignas de nota, Academias Literárias, Gabinetes de Leitura, livrarias e outros espaços de sociabilidade cultural.  Tanto quanto sei, algumas bibliotecas eram ecléticas o que indicia que a curiosidade dos leitores se sobrepunha às proibições e até à moral vigente. A título de curiosidade posso dizer que há uns tempos visitei uma conhecida casa desta região onde os editais da Real Mesa Censória mantinham uma salutar convivência com os livros proibidos existentes nas mesmas estantes, tudo sob o olhar atento de um eclesiástico imortalizado num retrato a óleo existente numa sala contígua…

Uma notícia publicada na edição do periódico inglês “New Quarterly Magazine" de 1876 apresenta Braga e Guimarães como lugares algo remotos onde, contudo, é possível encontrar uma elite que se interessa por política, literatura e ciência e diversas livrarias onde se poderiam adquirir obras relativas essas matérias. O articulista estima que o número seguinte da “New Quarterly Magazine” estaria disponível na região uma semana após ter sido publicado em Londres. Esta notícia demonstra não só que a informação e as novidades científicas, literárias e políticas chegavam rapidamente à região, mas também que havia público para estas novidades.

Um pouco mais surpreendente (pelo menos para mim) foi a leitura de uma outra notícia que nos dá nota da existência de um laboratório de química na Casa de Vila Pouca. De acordo com o periódico “Panorama” (Vol. XIV, 1857), em finais do século XVIII/início do século XIX existiu em Guimarães um laboratório de química pertencente a António de Sousa da Silva Alcoforado (1747-1809). Pouco sabemos sobre a vida de António Alcoforado. Nasceu num meio privilegiado em que se dava valor à cultura. Dos seus familiares merece destaque a sua irmã, a Viscondessa de Balsemão, notável poeta. António Alcoforado manteve-se solteiro (possivelmente pelo facto de não ser o herdeiro da Casa) e foi Capitão de Cavalaria na Guerra Peninsular. O seu laboratório é um dos quatro elencados no artigo (pertencendo os outros ao Príncipe Regente, à Casa da Moeda e à Universidade de Coimbra), o que parece indicar que estamos perante algo pouco comum na época (embora tenhamos notícia de outros). A extravagância, digna de nota, deixou algum rastro pois na biblioteca da Casa de Vila Pouca (pertencente hoje em grande parte à Sociedade Martins Sarmento) podemos encontrar obras como a 1ª edição do “Traité elementaire de chimie” (1789) de Lavoisier, as II partes dos “Elementos de Chimica” (1788-90) de Vicente Coelho de Seabra, entre outras relativas à mesma matéria que certamente pertenceriam a este químico amador. É legítimo presumir que o Capitão Alcoforado não seria o único utilizador do seu laboratório e que as notícias do que ali se passava chegariam a outras paragens. Do que se depreende do artigo de “O Panorama”, o espaço deveria ser aberto, podendo ser visitado por outros químicos e por curiosos (como acontecia com os Gabinetes de Curiosidades). Suponho que terá sido esse espírito de partilha que permitiu que vários anos após a morte de Alcoforado o seu laboratório ainda fosse notícia.

Imbuído do mesmo espírito de partilha é com todo o gosto que começo o ano com a divulgação desta pequena curiosidade vimaranense.

Desejo a todos os leitores do Jornal de Guimarães um Bom Ano Novo!

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