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"Cunha": irmã gémea da sociedade portuguesa?

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, outubro 06, 2026
© Direitos reservados
Não há nenhum português que, em nome da ética, deixe de ligar para um auxiliar, médico ou político se tiver um familiar ou amigo gravemente doente e o puder ajudar.

Quem ler as cartas trocadas entre os homens influentes do nosso século XIX irá perceber que, pelo menos desde essa época, a "cunha" era já uma instituição. Políticos, proprietários, empresários, escritores, etc. utilizavam recorrentemente os seus empenhos para tentar conseguir um emprego para parentes, amigos e dependentes na função pública ou para a resolução de um qualquer problema que não encontrava solução através dos canais oficiais. Chegou a trocar-se correspondência em que eram pedidos favores ao mais alto nível para obter empregos de terceira categoria. Creio que não será disparatado afirmar que, naquele tempo, só seria possível obter um emprego público com uma cunha. Com a Primeira República e com o Estado Novo nada mudou, com a excepção dos protagonistas. Sabe-se hoje que durante a ditadura de Salazar e Caetano existiram milhares de pedidos de cunhas a que estes e os seus apaniguados iam atendendo de acordo com possibilidades e conveniências.  Tal como aconteceu no passado, as cunhas serviram para obter empregos, colocações, etc. Durante a ditadura, a novidade estará nas cunhas metidas por causa da longa guerra nas colónias. Sabemos hoje que, para escapar à tropa ou aos piores sítios da guerra, fizeram-se as mais diversas diligências junto de políticos e até de militares.  A este propósito, faço um desafio aos historiadores: estudem a origem social das pessoas que foram para os piores sítios da guerra nesse período. Creio que com a excepção de “ultras”, de voluntários e de opositores políticos, não irão encontrar por lá muita gente oriunda de famílias influentes ou ligadas ao regime.

Com o 25 de Abril e com a democracia mudaram as personagens e, se é verdade que o acesso a certos lugares se tornou mais transparente, a cunha persistiu.

Há dias, perguntado sobre a cultura da cunha e se este era um fenómeno português, José Luís Carneiro, de forma inteligente, disse não saber pois para responder teria de comparar Portugal com outros países. De facto, não sabemos se a “cunha”, com as características anteriormente referidas, é ou não algo em que Portugal é diferente de outros países. O que vamos percebendo é que, não raras vezes, a análise desde problema, vai menos no sentido da condenação e mais no sentido do ressentimento. O que de facto as pessoas parecem lamentar é não estarem em posição de fazer o mesmo.

Vêm tudo isto a propósito das reações ao “caso das gémeas luso-brasileiras”. É quase certo que foi metida uma “cunha”. Uma “cunha humanitária” que terá envolvido Marcelo Rebelo de Sousa, o seu filho Nuno, Lacerda Sales e outras pessoas. Aposto que nenhum dos envolvidos ganhou nada com isso.

É triste ver que em muitas análises a este caso, a questão de fundo, a “cunha”, não é tratada. Há o ataque político (ao ex-PR e a Lacerda Sales), laivos de xenofobia e até de inveja. Mas não se vai à questão de fundo. E isto acontece por uma razão muito simples: não deve haver nenhum português que, em nome da ética ou da moral, deixe de ligar para o porteiro do hospital, para um auxiliar, enfermeiro, médico, político ou até para o PR se tiver um familiar ou amigo gravemente doente e oportunidade de, com isso, o ajudar. E essa é que é a questão.  

 

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