Degradação comunicacional
Leia-me, caro leitor. Não se fique pelo título ou por frases destacadas. Não se sinta inseguro, que eu não vim para o intimidar. Nem sequer estou aqui por si. Ao mesmo tempo, espero fazê-lo sentir algo. Qualquer coisa. Sofro por isso. Sonho com a sua leitura daquilo que escrevo e iludo-me, acordado, com o que lhe possa despertar. Desejo, sempre secretamente, um brilho no seu olhar por um incontrolável momento de verdade produzido por aquilo que fiz para o impressionar. No meu sonho, impressiona-se mesmo, e nada me faz sentir mais vivo para lá dessa ideia. Dessa ilusão que por vezes me chega como a realidade que desesperadamente quero agarrar, manter e cuidar.
Por isso, leia-me quanto puder. Permita-me que o convença de que é para o seu bem. Dê a si próprio a oportunidade de não ter de se esbarrar em qualquer tentativa de se expressar quando tiver de o fazer. Perceba que não estou a prometer que não lhe voltará a acontecer; muito menos a sugerir que o que escrevo terá essa espécie de poder milagroso que o tornará num mestre da comunicação, mas só o poderá ajudar. Que é bem escrito, ambos sabemos que sim. Também não é minha intenção vender-lhe ideologias ou moralidades; não o pretendo artilhar de conhecimento económico, político ou social, mas apresentar-lhe temas e deixar-lhe observações. Tudo por egoísmo – preciso que me ajude a refletir, com a convicção de que esta partilha, no mínimo, o incentive a um pensamento que o ajude a formular as suas próprias ideias, esperando contribuir para que deixe de se embrulhar na incapacidade de comunicar que vive dessa crónica preguiça para pensar.
E tem-se provado, meu caro leitor. Vem acontecendo há bastante tempo – desde que descurámos a leitura e a escrita. Estava mesmo à nossa frente e nada se fez. Agora, não sabemos comunicar. Não só pela incapacidade de expressão, mas pela agressividade e revolta que essa impotência gera, criando ainda mais atrito à transmissão do que queremos dizer. Afinal, quem não deseja ser compreendido? Desde crianças que todos precisámos disso. Em adultos, se não estamos, parecemos menos inteligentes. Tudo porque a capacidade de interpretação que proporciona a compreensão exige leitura, e a comunicação precisa de vocabulário bem empregue. A degradação a que me refiro iniciou-se precisamente na perda de capacidade de expressão de ideias e opiniões, de conseguir verbalizar coerentemente pensamentos. De, simplesmente, se expressar.
Por isso, não se apresse a ler-me. Contrarie essa azáfama, e tenha paciência para aprofundar. A falta de respeito, educação e cultura, começa e acaba na fraca comunicação.
Há cada vez menos disponibilidade para tratar bem os outros. Em sorrir sem interesse, apenas por simpatia. E quase dá vontade de dizer que não tivemos alternativa, mas deve ser por já não sabermos pensar.