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Era uma vez – eleições legislativas

Diogo Nuno Mesquita
Opinião \ terça-feira, abril 01, 2025
© Direitos reservados
Por isso estamos entregues a esta mediocridade política – não há alternativa para que os erros do primeiro-ministro o penalizem como deviam.

Até onde deve ir a devassa a que um político se tem de sujeitar? É uma questão pertinente. Haverá, algures, uma linha ténue que separa as dúvidas legítimas acerca da ética e integridade necessárias para se poder exercer um cargo público, dos ataques e insinuações oportunistas que pretendem destruir publicamente o caráter de um adversário político. Ao que chafurda no meio disto, chamam-lhe escrutínio.

O mais engraçado é que pareceu haver consenso para a tentativa de aproveitamento da situação por parte dos principais envolvidos. Um certo desejo por uma oportunidade que viesse agitar o impasse político que estava condenado, a breve prazo, a um momento de fraqueza insuperável. O sonho por um lado, o desespero por outro – são os motivos do confronto. Vou passar a explicá-los.

Foi compreensível que o Governo não estivesse disponível para uma comissão parlamentar de inquérito sem fim previsto, rejeitando-a a quem visava enlodar as instituições da democracia e a pessoa do primeiro-ministro. Começaria aí a saga do país ingovernável porque não o deixavam trabalhar, não fosse o receio da exposição familiar caso estes fossem chamados. Sim, porque valeria tudo isso. Mas era desnecessária a autodestruição via moção de confiança. Precipitada por uma idealização transformada em obsessão que inevitavelmente acabou por encontrar oportunidade. Caiu na armadilha que armou para si próprio, e foi impaciente. Até rural, como diria o Presidente. Parou o país para jogar a cartada mais sonhada, e vai mesmo à procura da maioria absoluta. Quem não arrisca, não petisca, isso é certo. E o primeiro-ministro é rico – foi tudo o que descobriram até agora. Sabemos que ainda não é crime ser-se rico. Cometeu um erro de análise quando passou a empresa para o nome da mulher mas, entretanto, corrigiu. E os políticos podem ter empresas – não devemos esquecer. Haverá sempre suspeitas de interesses nestes casos, reforçadas por insinuações quando o maior interesse é descredibilizar, mas desta cartada ainda consta convencer os eleitores de que tudo o que representa, mesmo com comportamentos questionáveis e situações nebulosas, é melhor do que a oposição. E vai ser esta a campanha. Só demonstrando isso pode realizar o sonho. Se, como bónus, tudo deixar compreensível e justificado, só quem se interessar pelo prejuízo do escrutinado pode insistir na negação, revelando a intenção de aproveitamento daquilo que também lhes pareceu uma oportunidade. A vitimização nunca ajudou nenhum político. Estes querem-se rijos. De cabeça erguida. E este em específico já se curvou o suficiente na tentativa de sair por cima na moção que propôs.

Do outro lado, o desespero. Um líder derrotado que se vê rodeado de abutres preparados para a sua queda. Uma última oportunidade à frente de um PS que, como na Geringonça, não assume antes das eleições o fácil entendimento que teria com a extrema-esquerda somente redistributiva. Que pretende, via socialismo de miséria, acabar com os ricos ao invés de procurar combater a pobreza. A tentativa de suavizar uma candidatura apregoada ao centro-esquerda entrou em descrédito por incoerência e desgaste da postura. Até porque o não do primeiro-ministro ao filho da Geringonça (Chega) foi mesmo não, respeitando o eleitor.

Por isso estamos entregues a esta mediocridade política – não há alternativa para que os erros do primeiro-ministro o penalizem como deviam.

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