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As Feiras Novas – transformam a ruralidade em festa para todos

Nuno de Vieira e Brito
Opinião \ domingo, setembro 24, 2023
© Direitos reservados
Na verdade, as Feiras Novas distinguem-se de tantas pela vivencia e paixão da comunidade, contrapondo-se à orientação de gosto ou interesse duvidoso e deslocado de tantas outras.

No calendário de setembro, um dos eventos imperdíveis a nível nacional é (são) as Feiras Novas de Ponte de Lima, festa que tem a enorme particularidade de envolver gerações, estatuto social, origens. De todo o país ou apenas do Minho, as Feiras Novas atraem uma enorme multidão que celebra uma Festa tradicionalmente baseada na vivencia agrícola, que tem um dos seus pontos altos nos cortejos, mas que envolve toda a Vila mais antiga de Portugal durante uma semana.

Numa festa com mais de 190 anos, surge o equilíbrio natural de festas dedicadas à juventude. Pela noite fora com o MUSIC FEST: “VIVA AS FEIRAS NOVAS”, ate às 6h da manha do dia seguinte, ou no atuar das Tunas Académicas, no principal largo limiano, esta (juventude) deambula pela tarde e durante a noite dentro (que a manha é para descansar), pelas inúmeras tasquinhas que surgem na Vila, ativamente participando nas Rusgas e Concertinas, onde em cada canto, em cada esquina, um pouco por toda a vila a concertina é rainha. Modo de sentir a Festa como sua, que o traje minhoto vestido que rapazes e raparigas não dispensam.

Mas claro que as Festas têm sempre uma génese rural – alias este é o momento das Novas colheitas, do vinho e do milho, das Feiras Anuais de venda do gado. Terra agricolamente rica, o Vale do Lima, de quintas fartas, aqui desenvolveu nas suas várzeas a produção de gado bovino, nomeadamente a vaca Minhota, que em tempos ancestrais apresentava uma tripla função (carne-leite-trabalho), dando origem a empresas de lacticínios, como a Limianos. Apresentam-se nesta Feira, os melhores exemplares de Minhota (agora dedicada apenas para a produção de carne), no seu concurso Nacional, a que se associam as outras raças bovinas da região (a Barrosã e a Cachena), assim como as raças ovinas regionais (Bordaleira de Entre Douro Minho e Churra do Minho) ou as quatro raças avícolas (Amarela, Pedres Portuguesa, Preta Lusitânica e Branca) no seu concurso nacional. Tradição obriga, ainda, ao cortejo dos participantes do concurso pecuário bovino pelas ruas da Vila, permitindo a todos conhecer os corpulentos animais, vaidosos, que representam toda a região Minhota.

E Ponte de Lima é orgulhosamente uma terra de tradição hípica, promove o concurso nacional da raça Garrana, as suas particulares corridas de Passo Travado e permite que todos possam leiloar e serem proprietários de um animal desta raça milenar. E esta forte tradição prolonga-se para o ultimo dia com a Festa taurina, a tourada à portuguesa, dando oportunidade aos aficionados (em particular do Norte e espanhóis), de assistir a um dos mais ancestrais espetáculos portugueses. 

Mas a tradição agrícola manifesta-se de forma grandiosa no cortejo etnográfico, que entusiasma milhares de pessoas.  Aqui as freguesias do concelho e as suas gentes animam-se para mostrar os seus usos e costumes, as suas riquezas (a pedra, a mina), as suas rotinas (o compasso pascal e os cestos) e os seus produtos (o vinho, também o tinto, os enchidos, a broa, os doces e rebuçados). Mas novamente a alegria, a dançar (claro, o vira), a cantar, com que todos (mesmo todos) desfilam representando a sua freguesia, motivo de orgulho do ser limiano.

Desfile que se replica, agora, no domingo, com uma componente histórica. O período anterior e posterior à fundação de Ponte de Lima foi o tema de nove quadros históricos, do casamento de D. Henrique com D. Teresa até à atribuição do foral a Ponte de Lima, e também este desfile a envolver a população concelhia, através dos 12 grupos de teatro e associações locais.

E sempre em Festa permanente. Festa com folclore (também com todos os ranchos concelhios), o fado, com os gaiteiros e o ribombar estridente dos grupos de bombos acompanhando os Zé Pereiras, Gigantones e Cabeçudos, os cantares ao desafio, as bandas de música filarmónica e, sempre, as concertinas, tocadores, cantadores e cantadeiras, que não perdem este momento único. Claro, sempre com os morteiros e o fogo de artificio, deslumbrante sobre a ponte medieval.

Gosto de sentir e viver estas Feiras. Na verdade, as Feiras Novas distinguem-se de tantas pela vivencia e paixão da comunidade, contrapondo-se à orientação de gosto ou interesse duvidoso e deslocado de tantas outras. Difere de estar a assistir a um espetáculo, mesmo que interessante, a ser protagonista apaixonado e feliz desse mesmo espetáculo. Seria bom que quem nos pretende orientar pelo gosto, se envolvesse na génese destas Festas e se deixasse envolver pelo gosto de todos.

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