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Humor: breves notas para uma longa história

Francisco Brito
Opinião \ sábado, novembro 12, 2022
© Direitos reservados
Em vários jornais vimaranenses existia uma secção intitulada “Museu…” para onde os humoristas remetiam pessoas, instituições e situações que achavam ultrapassadas, caricatas ou estúpidas.

Há uns dias foi-me perguntado se sabia alguma coisa sobre a história do humor. Como não estava prevenido para a pergunta limitei-me a esboçar uma resposta algo inconsistente recorrendo à minha péssima memória. É quase certo que há milhares de anos alguém fez uma piada numa caverna, mas como não há provas disso comecei por referir as Comédias gregas, os romanos Plauto e Terêncio, os autos medievais, Bocaccio, as comédias renascentistas e modernas (onde recordei Gil Vicente, Molière e Shakespeare), etc. Depois lembrei-me da escatologia, presente em algumas cantigas medievais, em obras marginais de autores reputados como “Gracias y Degracias del Ojo del Culo” (de Quevedo), em certos poemas anónimos dispersos em obras do século XVIII, num folheto intitulado “Peidologia”, publicado no século XIX, da autoria do respeitável jurista Domingos Albuquerque e Amaral e em diversas publicações que, ao longo dos séculos, versaram sobre esta matéria que também é humorística. Noutros estilos, como a sátira, recordei o poeta vimaranense António Lobo de Carvalho, não deixando de referir Bocage e outros nomes que escreveram sobre temas muito variados dentro deste género que vão desde os “cornudos” aos “freiráticos”. Recordei também a existência de obras de uma natureza mais específica, como a “Macarronea Latino-Portugueza” (vulgo “Palito Métrico”), uma popular publicação com vários apontamentos humorísticos destinada aos estudantes de Coimbra e que é publicada desde o século XVIII. Nos “Relógios Falantes” de D. Francisco Manuel de Melo, dois relógios avariados, um oriundo da cidade e outro do campo, encontram-se numa oficina e lá, num improvável diálogo, encetam uma curiosíssima crítica de costumes. Na “Gaticanea ou Cruelíssima Guerra entre os Cães e os Gatos decidida em uma sanguinolenta batalha na grande praça da Real Villa de Mafra” (1781) encontramos um humor aparentemente nonsense, ao que parece subsidiário (na forma) da “Batrachomyomachia”, um combate entre rãs e ratos que, por sua vez, é uma sátira à Ilíada de Homero. Camões também foi satirizado pois pela pena de uns estudantes de Évora foi escrita uma “Paródia ao primeiro Canto dos Lusíadas” e há outras obras do mesmo género sobre a grande epopeia portuguesa. O humor está presente no grande clássico da literatura mundial que é “D. Quixote” de Cervantes, onde à alienação do cavaleiro que combatia moinhos de vento, se junta a loucura de uma sociedade que julgava poder tratá-lo destruindo os seus livros. Uma das passagens mais notáveis da obra (em que o humor se mistura com a tragédia) é aquela que descreve o cura e o barbeiro em casa de Quixote a prepararem-se para queimar os livros do fidalgo, enquanto os comentam, como se fossem ao mesmo tempo inquisidores e críticos literários. Curiosamente o padre decide salvar algumas obras das chamas, sendo que uma delas é “La Galatea” de Cervantes...

Apesar dos diversos exemplos referidos convirá não esquecer que a censura (institucional ou social) sempre ensombrou o humor que, ainda assim, foi conseguindo libertar-se das diversas limitações que lhe foram impostas.

Em Portugal, na segunda metade do século XIX, a edição e a imprensa conheceu um período de grande liberdade. Camilo e Eça (entre outros) fizeram da crítica de costumes um estilo onde o humor marca presença. Personagens como Calisto Elói, o Conde de Gouvarinho ou o Conde de Abranhos retratam com humor uma certa casta de políticos. Noutro registo, em “Coração Cabeça e Estômago”, Camilo usa Silvestre da Silva como o arquétipo do jovem citadino, poeta idealista e romântico que, com a idade, acaba por se render aos ditames do estômago e à famosa e rica mesa da mulher com quem casara (onde um convidado insaciável chega a morrer com uma indigestão de almondegas!). A par da literatura de referência continuaram a circular os folhetos satíricos e a literatura de cordel. Na segunda metade do século XIX surge o Teatro de Revista. É também por esta altura que se massifica a caricatura, por regra presente nos periódicos. E é precisamente nos jornais que, de uma forma mais sistemática, se passa a associar o humor a um alvo específico. Neste período ficam célebres caricaturistas como Celso Hermínio ou Bordalo Pinheiro cujo trabalho em periódicos como “Pontos nos ii” ou no “António Maria” é uma referência nacional. Mas não são só as caricaturas que atingem alvos específicos. Vários humoristas começam a identificar de forma directa as vítimas da sua pena.

Em Guimarães, entre finais do século XIX e início do século XX, surgem algumas colunas humorísticas nos periódicos generalistas bem como diversos jornais literários e humorísticos. Em alguns deles, como o “O Espião” ou o “O Melro” o humor é corrosivo e os visados são devidamente identificados ou facilmente identificáveis. Estes periódicos publicaram caricaturas de personalidades conhecidas da cidade que satirizavam sem receios. E em vários destes jornais existia uma secção intitulada “Museu…” para onde os humoristas remetiam pessoas, instituições e situações que achavam ultrapassadas, caricatas ou estúpidas. Pergunto-me se hoje, em Guimarães, alguém teria coragem de fazer o mesmo. Entretanto, com a ditadura do Estado Novo e com a censura toda esta dinâmica desapareceu, tendo voltado a surgir, noutro registo, apenas depois do 25 de Abril.

Hoje em Portugal o humor é livre. Ainda assim, não raras vezes, os seus limites são debatidos e testados. Mas essa é uma outra história.

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