Liberdade, democracia e civilidade
Num momento em que, antes de uma declaração de voto, é quase obrigatória uma declaração prévia do nosso posicionamento político, socorro-me de Agostinho da Silva para afirmar – parafraseando uma ideia sua – que sou um conservador da sardinha e não da lata. Dito isto, afirmo também que, na primeira volta das eleições presidenciais, após alguma ponderação, votei em António José Seguro. E fi-lo porque, apesar de não ser do meu espectro ideológico, reconheci em Seguro características essenciais para desempenhar a função de Presidente da República: conservadorismo institucional, moderação, civilidade, decência e capacidade de diálogo e de compromisso.
A luta que se avizinha opõe Seguro a Ventura. É, portanto, a luta entre um homem decente, sensato, sereno e respeitador das instituições contra outro que, por regra, se apresenta como divisivo, imprevisível e com uma sobrexcitação que não raras vezes lhe tolda o juízo (a este propósito, recorde-se a vontade de prender o Primeiro-Ministro de Espanha ou a leveza com que admitiu a hipótese de Portugal entrar em guerra com os EUA).
Mas o que está em jogo no próximo acto eleitoral não são apenas as características pessoais destes dois adversários. É o futuro da democracia liberal.
Ventura representa o populismo de extrema-direita. Usa uma estratégia de culpabilização do outro pelos problemas do país que tem conquistado o voto dos desiludidos da direita tradicional e até de eleitores de outros espectros políticos. Usa sem pudor a religião (católicos, evangélicos, etc.) e grupos ultrarradicais como um instrumento para atingir os seus objectivos. Convence quem não olha para si mesmo antes de atirar a primeira pedra e quem ainda acredita em salvadores da pátria. O seu discurso – por vezes perverso – está a dividir a sociedade e até as famílias. Não tenhamos dúvidas: a sua eleição para a Presidência da República será sinónimo de um país menos livre, menos democrático, mais dividido e mais instável (fará cair o governo à primeira oportunidade).
António José Seguro apresentou-se com audácia. Livre e sem amarras, como o próprio disse. Numa altura em que não era expectável nem certo o apoio do seu partido e em que as sondagens davam como certa a sua derrota, teve a coragem de avançar sozinho com uma campanha feita pela positiva e com esperança. A sua fleuma leva-nos, por vezes, a esquecer que estamos a falar de um homem que, quando foi necessário, foi capaz de confrontar o seu próprio partido, de levantar-se para votar solitariamente no Parlamento, em nome do que entendia ser o melhor para o Portugal, e que soube sair de cena com dignidade quando o seu partido entendeu que não servia. Se é verdade que é um homem de consensos e de diálogo, não é menos verdade que tem a coragem necessária para colocar em primeiro lugar o interesse nacional.
Seguro é, neste momento, a força congregadora não só do espectro político de onde é oriundo, mas também e acima de tudo de todos aqueles que defendem a democracia liberal. E esta defesa – que Seguro tão bem representa – traduz-se no respeito pelas instituições, pelas pessoas e pelas suas liberdades individuais e colectivas, na defesa do nosso chão comum, do nosso povo e de um país para todos.