Mais do que uma vitória, um aviso
As eleições do Vitória Sport Clube deixaram uma mensagem que não deve ser ignorada. Rui Rodrigues venceu, é certo, mas fê-lo por uma margem de apenas dois votos. Mais do que uma vitória expressiva, o resultado traduz um clube dividido e uma massa associativa que, no seu conjunto, manifestou maioritariamente vontade de mudança.
A legitimidade da lista vencedora é indiscutível e deve ser respeitada. Quem ganha, ainda que pela diferença mínima possível, ganha. Mas seria um erro interpretar este resultado como uma validação inequívoca do caminho seguido nos últimos anos. Pelo contrário, a soma das candidaturas alternativas evidencia que uma maioria dos sócios rejeitou a continuidade do projeto liderado por António Miguel Cardoso, do qual Rui Rodrigues fez parte.
Essa realidade merece reflexão. Porque, apesar de a mudança de líder não significar, por si só, uma mudança de rumo, a verdade é que as pessoas contam. E contam muito, ou assim espero. Rui Rodrigues não é António Miguel Cardoso. A experiência profissional na área financeira, a maior maturidade e uma postura aparentemente mais ponderada permitem admitir que possa existir mais discernimento nas decisões e uma capacidade acrescida, que António Miguel não revelou, para enfrentar os desafios que o clube tem pela frente.
Isso não apaga, porém, o balanço profundamente negativo do mandato cessante. António Miguel Cardoso ficará, provavelmente, na memória de muitos vitorianos, como um dos piores presidentes da história do clube. E António Miguel está consciente disso, e para tentar escamotear essa realidade, dedicou-se durante o mandato cessante e mandato anterior e nos últimos dias - até por comunicado -, ao autoelogio e a construir uma narrativa alternativa. Não são apenas os resultados desportivos ou a situação financeira, que o demonstra, mas também a liderança frequentemente incapaz de unir, de agregar e de compreender a dimensão institucional do Vitória.
Por isso, Rui Rodrigues recebe um mandato paradoxal: venceu, mas recebeu igualmente um aviso. Os sócios confiaram-lhe a presidência, mas não lhe concederam um cheque em branco. O resultado eleitoral demonstra que a continuidade só será aceite se for acompanhada de uma verdadeira capacidade de corrigir erros, restaurar a confiança e colocar os interesses do Vitória acima das lógicas de grupo.
Porque, no final, o que os vitorianos pediram não foi a perpetuação de um ciclo. Foi, acima de tudo, que o Vitória volte a estar acima de quem o dirige, que volte a ser Grande!