Não há futuro sem verdade
O Vitória Sport Clube aproxima-se de novas eleições num dos momentos mais exigentes da sua história recente. Mas antes de escolher um futuro, há uma condição que não pode continuar a ser contornada: conhecer, com rigor, o presente.
Durante os últimos quatro anos, a presidência de António Miguel Cardoso foi sustentada numa narrativa de uma falsa estabilidade que hoje se revela de forma crua. Não existiu um projeto financeiro e desportivo consistente, capaz de dar resposta aos problemas estruturais do clube e da SAD. Pelo contrário, assistiu-se ao agravamento do passivo e à manutenção de um desequilíbrio financeiro que nunca foi verdadeiramente enfrentado por incapacidade e por falta de um plano de recuperação financeira. Alertei para isso ao longo dos quatro anos.
Mas a responsabilidade não se esgota na liderança. António Miguel Cardoso não governou sozinho. Fê-lo com a sua equipa e com os demais órgãos sociais que, tendo o dever de fiscalizar e questionar, optaram demasiadas vezes pelo silêncio. E fê-lo perante uma massa associativa que, em larga medida, preferiu concentrar-se no resultado imediato, ignorando sinais evidentes de fragilidade estrutural.
Este contexto foi agravado por uma estratégia de comunicação eficaz, que construiu uma perceção de sucesso sem correspondência nos fundamentos do clube. A isso somou-se um acompanhamento mediático, na sua maioria, pouco exigente, frequentemente limitado à reprodução de comunicados, onde prevaleceram sensações em detrimento da análise rigorosa dos números.
O resultado é hoje evidente: falta de transparência, ausência de informação atualizada e decisões estruturais tomadas sem o necessário escrutínio. O acordo parassocial com a VSports permanece como um dos exemplos mais graves dessa opacidade, com potenciais impactos na autonomia da SAD que continuam por esclarecer.
É neste quadro que surgem as eleições. E é aqui que o problema se torna ainda mais evidente. Os candidatos que, até agora, assumiram disponibilidade devem ser saudados por se exporem ao escrutínio. Mas isso não basta. Um deles representa uma linha de continuidade com a anterior gestão, tendo integrado órgãos sociais que nunca levantaram a voz perante decisões críticas, incluindo o acordo parassocial. O outro não apresenta, até ao momento, percurso ou demonstração de capacidade que permita sustentar a exigência que presidir ao Vitória impõe.
Não se trata de uma questão pessoal. Trata-se de um critério mínimo de responsabilidade. O Vitória não pode voltar a escolher com base em perceções, simpatias ou impulsos. Exige-se preparação, conhecimento e independência.
Sem informação completa, não há escolha consciente. Sem exigência, não há mudança. E sem mudança, o risco é apenas um: prolongar um ciclo onde nada de estrutural se resolve.
O Vitória precisa de verdade, a questão é se quem pode revelar a verdade está disposto a fazê-lo? Não creio infelizmente. E sendo revelada a verdade, o Vitória precisa, finalmente, de quem saiba o que fazer com ela.
Pedro Carvalho