Nem Adepto, Nem Presidente
Há lapsos, há imprecisões e depois há exercícios de cartografia alternativa como o protagonizado por Joaquim Reis, presidente da Associação Académica de Coimbra, que, em plena intervenção pública, numa live, entendeu referir-se ao Vitória Sport Clube como “aquele clube de Espanha”. Um apontamento que, mais do que ofensivo, é revelador, dizendo-nos mais sobre quem fala do que sobre quem é alvo.
O próprio procurou enquadrar a afirmação, alegando que falava “enquanto adepto”. Trata-se, porém, de uma distinção artificial. Quem exerce funções institucionais não dispõe da faculdade de suspender, ainda que momentaneamente, a responsabilidade inerente ao cargo, sobretudo quando intervém em contexto público e em matérias diretamente relacionadas com a atividade desportiva do clube que dirige.
Acresce que a expressão utilizada não é despida de contexto. Inscreve-se num registo antigo de rivalidade regional, particularmente associado ao confronto simbólico entre o Vitória e o Sporting Clube de Braga, onde tais qualificações fazem parte de um léxico de provocação identitária. Todavia, a sua transposição para um plano institucional, fora desse contexto específico, não só carece de pertinência como evidencia uma inadequação evidente ao espaço em que foi proferida.
Não se trata, portanto, de uma questão de suscetibilidade, nem de um episódio que mereça amplificação desproporcionada. O Vitória Sport Clube não vê a sua dimensão diminuída por declarações desta natureza, nem se move em função de tais considerações. As suas exigências competitivas e institucionais situam-se noutro patamar.
Ainda assim, subsiste uma dimensão que não deve ser ignorada: a do respeito institucional entre clubes. Não por se estar perante uma ofensa grave, mas porque a banalização de determinados registos contribui para um empobrecimento do discurso público no desporto.
Neste plano, causa alguma estranheza a ausência de uma posição por parte da Direção do Vitória. Não enquanto reação emotiva ou desproporcionada, mas como afirmação serena de um princípio: o de que a representação institucional impõe limites claros, independentemente da intenção ou do contexto invocado.
Em suma, o episódio, sendo menor na sua substância, acaba por evidenciar uma questão mais ampla: a dificuldade, ainda recorrente, de distinguir entre o plano da expressão individual e a responsabilidade inerente ao exercício de funções dirigentes. E essa, mais do que qualquer deslize retórico, é uma matéria que merece reflexão.
Pedro Miguel Carvalho