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No fundo, no fundo, ninguém quer dar o murro na mesa

Carlos Rui Abreu
Opinião \ sábado, janeiro 21, 2023
© Direitos reservados
Quase não há semana em que não sejamos confrontados com atitudes menos dignas do mundo do desporto. Acreditem no que escrevo. Enquanto não houver coragem nada irá mudar a culpa será sempre dos outros.

Sejam protagonizados por jogadores, treinadores, dirigentes ou adeptos, os casos de violência física ou verbal para com agentes desportivos têm o condão de levantar a discussão.

Mas é uma ‘discussão mola e estéril’ porque tanto sobe de intensidade como rapidamente baixa e não produz qualquer efeito prático.

Quando a mola da discussão está no ponto mais alto, surgem os mais diversos intervenientes, da política aos intelectuais do comentário, do dirigismo desportivo ao mais comum dos adeptos, todos têm uma opinião a dar, um ponto de vista para se resolver o problema. Surgem os grupos de trabalho – que em Portugal significa que não se vai fazer nada – propostas de alterações de lei, abertura de inquéritos e um infindável número de ferramentas que levam os mais incautos a acreditar que algo vai ser feito.

Pura ilusão!

Na verdade, neste nosso país, não há coragem para se intervir a sério na moralização do desporto. Desde logo porque a classe política só tem classe na designação e deixa muito a desejar. Estão reféns de clientelas e obedecem apenas a cálculos puramente eleitoralistas e às diretrizes emanadas pelos consultores de comunicação. Medidas impopulares, por muito que sejam necessárias, não entram no rol de prioridades. E já se sabe que mexer nesta matéria teria de ser com medidas radicais que a pequenez moral e intelectual dos políticos atuais jamais iria permitir.

É claro que o desporto também tem órgãos disciplinares e de gestão das competições que lhe permitir mexer. Mas, neste particular, políticos e dirigentes desportivos estão do mesmo lado. As tais medidas impopulares e radicais, para banir jogadores, treinadores, adeptos que não cumprem os mínimos de urbanidade não seriam bem recebidas pela turba e há lugares nas SAD, onde se tem acesso a muito dinheiro, que têm de ser mantidos.

No fundo, no fundo, ninguém quer dar o murro na mesa e é sempre mais popular virar o foco para os alvos mais fáceis nestas circunstâncias. Se um dos nossos comete um erro, a melhor desculpa é dizer que os outros já fizeram pior; se os nossos pisam o risco, o mais fácil é dizer que a culpa é da comunicação social, que devia estar calada e falar só nos nossos sucessos.

Enquanto assim andarem os nossos dirigentes, políticos e desportivos, a avestruz nunca se sentirá sozinha quando enterrar a cabeça na areia. Só que, ao contrário do simpático animal, quando os dirigentes desenterram a cabeça só têm olhos para os seus próprios interesses.

Apelos à não violência contra árbitros, adeptos adversários ou racismo, têm datas marcadas no calendário e, nesses dias, entraremos todos em campo com faixas de frases bonitas para dar uma bela imagem.

Acreditem no que escrevo. Enquanto não houver coragem nada irá mudar e a culpa será sempre dos outros.

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