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O Centro Histórico da Humanidade e as Nicolinas

Amaro das Neves
Opinião \ segunda-feira, dezembro 27, 2021
© Direitos reservados
Impunha-se “fazer, ao nível da cultura imaterial, algo de semelhante à recuperação arquitetónica do Centro Histórico". É certo que algo se andou nesse sentido, mas com resultados insuficientes.

Naquela quinta-feira, viviam-se em Guimarães as horas ansiosas que antecedem os grandes momentos. O presidente da Câmara perambulava pela Praça da Oliveira agarrado ao telemóvel, à espera da notícia da consagração internacional do Centro Histórico. Eram quase quatro da tarde quando a confirmação chegou de Helsínquia, transmitida voz da vereadora Francisca Abreu e logo proclamada por António Magalhães: a partir de agora, Guimarães é património da humanidade. Muitos parabéns a todos, muitos parabéns a todos.

Os sinos repicaram, estouraram os foguetes e as rolhas do Murganheira com que se brindou a um dos mais belos momentos da história de Guimarães. Estava consumado o reconhecimento de um processo de recuperação exemplar, que honra Guimarães, os vimaranenses e, em particular, os seus mentores e obreiros, de Fernando Távora a Alexandra Gesta, de Óscar Pires a Francisca Abreu, de António Xavier a António Magalhães, entre tantos outros.

O reconhecimento pela UNESCO não era o fim do caminho, mas o ponto de partida para o que faltava caminhar, nomeadamente na valorização das camadas do património que habita as ruas, as praças e os edifícios — a História, as tradições, os saberes, a oralidade, o artesanato, a gastronomia, a música, a literatura, as artes — o património imaterial.

Impunha-se, como escrevi então, “fazer, ao nível da cultura imaterial, algo de semelhante ao que se fez na recuperação arquitetónica do Centro Histórico”. É certo que algo se andou nesse sentido nas duas décadas que correram desde então mas, tenhamos a humildade de o reconhecer, com resultados insuficientes.

O exemplo mais saliente desta insatisfação é o arrastamento do processo de candidatura para a inclusão das nossas festas mais carismáticas, as Nicolinas, na lista representativa do património cultural imaterial da humanidade, instituída pela Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, aprovada pela UNESCO em Paris, em 2003, para responder à “necessidade de reforçar a consciencialização, em particular das gerações jovens, para a importância do património cultural imaterial e da sua salvaguarda”.

A ideia foi avançada por Lino Moreira da Silva em janeiro de 2005, no jornal O Povo de Guimarães, e assumida por unanimidade, por proposta do grupo parlamentar do PSD, pela Assembleia Municipal de Guimarães, mas não lhe pôde ser dado seguimento antes da ratificação da convenção da UNESCO pelo Estado Português, que só aconteceria em março de 2008. Nesse ano, a Assembleia Municipal aprovou a recomendação da sua comissão de educação para que a Câmara constituísse uma comissão técnica para a condução do processo de classificação das Nicolinas e promovesse a realização de estudos científicos especializados.

Em 2011, a Câmara contratualizou com uma equipa liderada pelo antropólogo Jean-Yves Durand a realização de um estudo que deveria servir de suporte à candidatura à inclusão das Nicolinas na lista da UNESCO e que deveria ser entregue até setembro de 2013. Quando foi apresentado, em março de 2014, devia estar longe de acabado, já que, em março de 2017, o investigador responsável me pediu para colaborar num e-book, para o qual contribuí substancialmente pro-bono, mas que, afinal, não era o que me foi dito, mas o relatório do estudo que, supostamente, já tinha sido apresentado em 2014.

A sua apresentação pública, no final de 2018, foi o último ato público da candidatura das Nicolinas ao reconhecimento pela UNESCO. Quando celebramos os 20 anos da classificação do Centro Histórico, passam 16 sobre a aprovação pela Assembleia Municipal de Guimarães da proposta que deveria conduzir à formalização da candidatura das Festas Nicolinas ao reconhecimento pela UNESCO, que continua a marcar passo, quando oito propostas mais tardias, do fado aos chocalhos, já entraram para a lista.

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