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O embrutecimento dos símbolos

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, setembro 08, 2026
© Direitos reservados
Este texto não é sobre a monarquia. É sobre mudança, perda e continuidade num mundo em transformação.

Há dias morreu Haroldo V, rei da Noruega e o monarca mais velho da Europa. Nas televisões, jornais e nas redes sociais, debateu-se a utilidade da monarquia e alguns aspectos problemáticos da sua sucessão.

Hoje, a instituição monárquica é considerada por muitos um anacronismo. Dita a razão — e bem — que a chefia de Estado não deve ser herdada. Mas é precisamente neste ponto que começam as perguntas e as dúvidas de muitos. Se é lógico e racional que o representante máximo de uma nação seja eleito, quais os motivos para que, nas monarquias constitucionais (onde o poder de decisão reside no Parlamento), se mantenha aquele tipo de representação? Como é possível que países extremamente evoluídos, como a Dinamarca, Suécia, Noruega, etc., insistam na monarquia quando, através de um simples referendo ou maioria parlamentar, poderiam acabar com um sistema que, do ponto de vista estritamente racional, não faz sentido? Ainda por cima, quando se sabe que não foi a instituição monárquica o principal motivo pelo qual esses países no estão no topo dos índices de desenvolvimento humano, mas sim um conjunto distinto de factores, bem conhecidos de todos.

Como se percebe que, por outro lado, tenham sido as instituições monárquicas a contribuir para o consolidar da estabilidade política na península arábica ou em alguns países africanos (que, não sendo monarquias, reconhecem monarcas e autoridades tradicionais)?

A resposta encontra-se fundamentalmente no plano simbólico que as monarquias encerram. Mas qual a vantagem de projectar essa dimensão na chefia de Estado?

Nas últimas décadas, num movimento de tenaz, certos aspectos de doutrinas que se quererem afirmar como ultra-liberais, por um lado, e ultra-progressistas, por outro, têm vindo a desconstruir a dimensão simbólica da vida das comunidades. A título meramente exemplificativo, pode dizer-se que as comunidades deixaram passivamente transformar-se a si e ao que é seu em marcas comerciais, que as pessoas deixaram-se fechar no identitarismo e que a tentativa de colocar a história das nações no divã da psicanálise (e a narrativa da culpa) teve como reacção um recrudescimento do nacionalismo e da hiperidentidade.

As ruínas desse processo de desconstrução servem de base para os alicerces de uma nova construção, aparentemente mais flexível, mas bem definida e mais uniforme. Se há características positivas deste processo que hoje representam alguns dos melhores valores e das grandes conquistas da nossa sociedade (como uma maior liberdade individual, de circulação, de expressão, sexual, religiosa, etc.), há também uma terraplanagem de certos conceitos e fundamentos que abre caminho a um vazio que se ramifica em vários planos (na espiritualidade, na política, nas relações interpessoais, entre outros). Este vazio, criado pela desvalorização do simbólico, a todos atinge, ainda que de diferentes formas. E tem vindo a ser preenchido por formas imediatas de gratificação e de realização pessoal, que vão desde o populismo e hiper-activismo político ao consumo de bens, crenças e experiências vendidos a eito com a ajuda de um qualquer algoritmo. A pessoa (o ser humano), passa agora a ser um consumidor de instantes. A Humanidade, finalmente conectada, ao invés de se tornar uma comunidade, tornou-se uma clientela que consome sem questionar o que lhe é servido.

A natureza global deste fenómeno remete-me para as seguintes palavras do poeta António Barahona:

“A humanidade não me importa muito, nem pouco, nem nada; o meu próximo, sim, importa-me tudo na tentativa de nele amar o Todo. A humanidade é uma abstracção de políticos e filósofos ateus, nazis, comunistas, tecnocratas, etc., que pretendem transformar o mundo num campo de concentração global, povoado, na sua maioria, por uma espécie de canalha, dependente de máquinas (cada vez mais sofisticadas) e desligada do transcendente por incapacidade mental. O meu próximo é concreto, como este texto que exprime letra, a letra o espírito do que digo.”

Talvez a manutenção de um regime democrático, cuja cúpula é anacrónica, seja apenas uma forma de salvaguarda de uma constante com as suas variáveis (algo que funciona, pois não há nada mais tradicional do que a mudança).  Uma forma de resistência a um mundo que, para parafrasear Barahona, neste momento “atinge o ponto culminante perante o Nada, recheado de ódios, ídolos, contabilistas usurários e pseudo-espiritualidades lúdicas vizinhas do embrutecimento dos símbolos”.

 

PS: não posso deixar de referir que António Barahona  (que cito neste artigo) viu recentemente o seu subsídio de mérito cultural cortado para metade, passando a receber 257 euros/mês. Uma aparente tentativa de uniformização destas migalhas sobrepôs-se ao critério de mérito cultural que presidiu a sua atribuição inicial. Lamentável.

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