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O lítio chegou a Guimarães

Nuno de Vieira e Brito
Opinião \ quarta-feira, fevereiro 16, 2022
© Direitos reservados
Precisamos do lítio e, eventualmente, do valor económico que traz para o nosso concelho, mas, sobretudo, temos o direito de conhecer (e avaliar) o preço (ambiental e social) que nos corresponde pagar.

O Governo aprovou, muito recentemente, a prospeção (a decorrer num prazo máximo de cinco anos), e consequente exploração de lítio, em seis zonas de Portugal, com cada um dos projetos a ser sujeito a respetiva Avaliação de Impacto Ambiental.

A mineração de lítio reduzirá a dependência da Europa de importações de um elemento chave na frenética corrida global para descarbonizar a indústria automobilística. A procura aumenta à medida que os fabricantes de automóveis se direcionam para a produção de frotas de baixa emissão e os governos procuram eliminar gradualmente os veículos movidos a combustível fóssil no combate contra as alterações climáticas.

Com o lítio extraído principalmente na Austrália e na América do Sul, a China controlando mais de 40% da produção mundial de lítio e quase 60% da capacidade global de refinação, esta decisão tem uma
importância fundamental para a independência da Europa deste recurso, mercado que se prevê de 250 biliões de dólares em 2025.

Acredita-se que Portugal tenha as maiores reservas de lítio do continente europeu, uma matéria-prima muito valorizada, dado que, conjuntamente com o níquel e o cobalto, é um elemento vital na produção de baterias de veículos elétricos. Um estudo da Universidade do Minho, realizado a pedido de uma empresa mineira, a Savannah Resources, constatou que as 60 mil toneladas de reservas conhecidas de lítio de Portugal (0,4% das reservas mundiais) são “insuficientes para satisfazer a procura de derivados de lítio para a produção de baterias na Europa”.

Outro estudo (Alexandre Lima - Universidade do Porto), considera que os suprimentos de lítio de Portugal são muito mais importantes do que o estimado atualmente e defende que o potencial de lítio oferece uma oportunidade única para a mineração limpa e moderna que pode reduzir a dependência da Europa do lítio extraído de locais como Chile e China (os dois principais produtores do mundo depois da Austrália), onde esta indústria levou à degradação ambiental generalizada, esgotamento da água, contaminação por produtos químicos e conflitos com as comunidades locais.

Ora, o lítio chegou a Guimarães. A região “Seixoso-Vieiros” distribui-se pelos concelhos de Fafe, Celorico de Basto, Guimarães, Felgueiras, Amarante e Mondim de Basto, ocupando uma área de 144,2 quilómetros quadrados. Segundo a Direção-Geral de Energia, os filões com potencial podem atingir algumas centenas de metros de comprimento e espessuras de 0,4 a 5 metros no caso de Vieiros, e 450 metros de extensão e 12 metros de espessura na área de Seixoso. Fomos ainda esclarecidos pela Direção-Geral de Energia e Geologia que “foram excluídas zonas de maior densidade urbana, funcional e demográfica”.

A extração de lítio tem impactos ambientais e sociais significativos, especialmente devido à poluição, dessalinização e esgotamento da água. Por outro lado, são necessários produtos químicos, com alguma toxicidade, para processar o lítio. A libertação de tais produtos químicos através de lixiviação, derramamentos ou emissão de ar podem prejudicar comunidades, desertificação, impacto nos ecossistemas, perda de biodiversidade e a produção de alimentos.

Preocupações de sustentabilidade têm influenciado a extração de lítio, nomeadamente, através de filtração de lítio de salmouras quentes sob rochas de granito. Reduz, mas não elimina, porque tal é impossível, o impacto sobre a natureza e as populações. Ora, acredito que as comunidades informadas são fundamentais para o sucesso de qualquer projeto e a transparência determinante para a sua adesão. Em Guimarães, nada sabemos e esta não é a melhor forma de respeitar as populações.

Precisamos do lítio e, eventualmente, do valor económico que traz para o nosso concelho, mas, sobretudo, temos o direito de conhecer (e avaliar) o preço (ambiental e social) que nos corresponde pagar.

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