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O negacionismo da crise democrática

Sara Martins Silva
Opinião \ sexta-feira, outubro 22, 2021
© Direitos reservados
Uma coisa é a percepção social, ou mesmo a experiência pessoal que possamos ter, enquanto cidadãos ou autarcas, outra coisa é um estudo académico que o comprova.

O Jornal O Conquistador publicou, na edição de Setembro, um importante e esclarecedor artigo para as eleições autárquicas. Em forma de entrevista, ao sociólogo vimaranense Esser Jorge Silva é explicado, de forma simples, e facilmente entendível, a viciação do sistema que nos governa, tendo por base a sua tese de doutoramento.

Não deixa de ser curioso que seja um jornal muito próximo à Igreja, sem dependência e, por isso, sem medo de afrontar os poderes políticos, a recuperar e trazer este estudo académico para a capa, no dia de reflexão das eleições, e num concelho que, apesar de não estar entre a amostra estudada, será um excelente exemplo do que é retratado nesta tese.

De volta à tese e entrevista que inspira este meu texto, sob o título Os Profissionais da Política – Estudo Interpretativo sobre a Elite Política, o sociólogo e investigador discorre sobre a cultura política em Portugal e faz um retrato assustador do estado da democracia.

Da leitura da entrevista percebemos que “há uma predisposição para os funcionários autárquicos se comportarem como empregados de um patrão. (…) Os funcionários, ou vivem com receio do poder, ou submetem-se alegremente por estarem em dívida para com quem lhes deu emprego. As instituições autárquicas são espiritualmente entendidas como propriedade de quem detém o poder. (…) É um comportamento que (…) remete para as relações de patrocinato e clientelas que eram comuns no feudalismo. Estamos quase sempre perante relações económicas usadas em benefício da manutenção do poder a que as populações se submetem.”i

Dirão os mais esclarecidos que estas conclusões não são novidade. É verdade, mas uma coisa é a percepção social, ou mesmo a experiência pessoal que possamos ter, enquanto cidadãos ou autarcas, outra coisa é um estudo académico que o comprova. E num tempo em que tanto se fala de negacionismo, recursar-se a olhar e aceitar as conclusões desta tese, é também ser negacionista.

Mas se a leitura desta entrevista era essencial no dia de reflexão das eleições, a sua leitura, no pós-eleições é também reveladora e comprovável. “Temos uma cultura política demasiado assente em lógicas de fechamento de grupos de interesses. (...) E esses grupos de interesses, (…) manifestam-se no domínio das oligarquias partidárias. Se quisermos mudanças há que acabar com esse intransponível círculo até porque quem os domina e ocupa são, em regra, pessoas cuja qualidade deixa muito a desejar. São pessoas que não vingam em mais nada e, na falta de outros talentos, fizeram uma espécie de "OPA" às estruturas locais dos partidos. Falta-lhes conhecimento, virtude, estudo, talento, independência e, essencialmente, aptidão para nivelar por cima. O resultado evidente é o afastamento dos cidadãos seguros de si, portanto, individualmente capacitados".ii

Qualquer semelhança com o panorama político-partidário vimaranense não será mera coincidência.

i In Jornal O Conquistador, ed. nº634, de 24 de setembro de 2021, pág. 8 e 9

ii idem

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