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O rei vai nu

Pedro Carvalho
Opinião \ quarta-feira, abril 24, 2024
© Direitos reservados
António Miguel Cardoso está cada vez mais isolado, cada vez mais autista, não tem, repito, soluções, não procura soluções, não tem projeto.

Ao analisar a atual situação do Vitória SC, e as mais recentes e sucessivas demissões de um vice-presidente da Direção e dos profissionais do departamento de scouting da formação, que se demitiram em bloco e por “divergências de fundo no que toca à organização, responsabilidades, comunicação, autonomia, processos de trabalho e visão futura no que diz respeito à formação", lembrei-me da história infantil “O rei vai nu” (na versão portuguesa) escrita pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, que foi publicada, pela primeira vez, em 1837.

A história, de forma resumida, passa-se assim. Em tempo pretérito, existia um rei muito vaidoso, que gastava grande parte do tesouro real em roupas e joias. Sabendo dessa sua fraqueza, dois vigaristas conseguiram ser recebidos por ele, e, apresentando-se como dois célebres alfaiates, disseram-lhe ter criado um tecido muitíssimo raro, precioso e tão especial que só as pessoas mais inteligentes o conseguiam ver. Com esse tecido, propunham-se confecionar-lhe uma roupa que mais nenhum monarca teria, uma roupa que enalteceria a superioridade do rei e que, ao mesmo tempo, lhe permitiria, entre os seus cortesãos, distinguir os de intelecto apropriado para continuar ao seu serviço. O rei achou a ideia extraordinária e tratou de pagar vultuoso adiantamento. Ao mesmo tempo, anunciou à corte e ao povo ter encomendado trajes únicos, absolutamente singulares, que só os verdadeiramente inteligentes seriam capazes de os apreciar. Os supostos tecelões montaram os seus teares no palácio e fingiram começar a trabalhar. O rei pediu aos seus ministros para acompanharem o trabalho dos alfaiates, para lhe darem conta dos resultados. Eles nada viam, mas não o queriam confessar, temendo passar por ignorantes. Os aldrabões, vendo-os atrapalhados, descreviam-lhes os esplendorosos tecidos. E recebiam mais dinheiro, seda e fio de ouro para completarem o trabalho. Os cortesãos voltavam então ao rei anunciando trajes de cores e padrões maravilhosos. Finalmente chegou o dia de o monarca desfilar perante o povo. O rei despiu-se e os Cavaleiros Tecelões (entretanto, já condecorados) vestiram-lhe as roupas que, nas suas palavras, eram tão leves quanto uma teia de aranha. Engalanado com as imaginárias vestes, o rei desfilou na principal avenida da cidade, seguido de toda a corte. Nas ruas e janelas, o povo aplaudia e elogiava os novos trajes do rei. Até que uma inocente criança gritou no seu espanto: “o rei está nu!”. O povo, então, caiu em si e desatou a ridicularizar o rei. Na versão original, o rei não dá parte de fraco e, impávido e sereno, marcha nu enquanto os camareiros seguram um manto invisível.

São vários os sócios do Vitória que, consciente ou inconscientemente, não querem ver a realidade atual do Clube, tal como o povo e os cortesões não queriam reconhecer ou admitir que não viam as vestes do Rei e que ele estava de facto simplesmente nu. E também tal como estes últimos preferem tecer elogios a um tecido que não existe. E o presidente do Vitória Sport Clube ostenta um comportamento que lembra o rei desta história e não o Rei que orgulhosamente faz parte da nossa história e da de Portugal. E tal como aquele rei (da história infantil) está mais preocupado com sua imagem e em manter-se no poder e exercer esse poder de forma absoluta (sem ouvir nada, nem ninguém, decidindo sempre sozinho). E também, tal como os falsos alfaiates, assegura a todos ter um projeto e ter soluções financeiras (a famosa almofada e lograda parceria), mas não realidade esse projeto não existe, tal como não existem soluções.

António Miguel Cardoso está cada vez mais isolado, cada vez mais autista, não tem, repito, soluções, não procura soluções, não tem projeto. Limita-se a vogar os bons resultados da equipa sénior de futebol profissional, que apesar das limitações de plantel tem tido um desempenho muito meritório e muito acima do esperado e com um apuramento europeu já garantido, sem contudo sequer perceber – ou querer perceber – que está tudo à volta a desmoronar-se (e acreditem que não estou a ser catastrofista), com a formação também a implodir-se, a equipa B em queda, perdendo valor e com cada vez menor número de talentos para substituir aqueles que António Miguel vende ao desbarato e à primeira oferta, exaurindo o plantel principal (como todos puderam constatar no passado domingo frente ao Sporting) e os planteis dos demais escalões. Entretanto o passivo continua a aumentar e os ativos a diminuírem. Ora, como diz o provérbio, o pior cego é o que não quer ver.  

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