O Vitória precisa de mais do que sobreviver
Há momentos em que olhar apenas para os resultados é uma forma demasiado simples de avaliar a realidade de um clube. O Vitória vive hoje um desses momentos.
O início de época não entusiasma, antes pelo contrário. Mas seria precipitado fazer já um julgamento definitivo sobre uma equipa e uma época que estão a começar. O problema maior está noutro lugar: naquilo que não se vê no relvado e que continuará a condicionar o futuro do Vitória.
As contas.
Já aqui escrevi sobre elas e não deixarei de o fazer. Não por obsessão, mas porque sem equilíbrio financeiro o Vitória continuará condicionado nas suas opções e dependente de soluções de curto prazo.
O orçamento recentemente aprovado para o Vitória Sport Clube, enquanto associação, prevê 5,315 milhões de euros de proveitos e um resultado negativo de cerca de 1,17 milhões. Mas estes números não traduzem a realidade financeira do futebol profissional. Na SAD, o passivo em 2024/25 era de 69,45 milhões de euros, com capitais próprios negativos em cerca de 24 milhões e um endividamento líquido de 47,3 milhões. E estes valores entretanto aumentaram.
É certo que nesse exercício foi apresentado um resultado positivo de 7,6 milhões de euros, tantas vezes invocado por António Miguel Cardoso e Rui Rodrigues. Mas também é certo que esse resultado foi fortemente influenciado pelas receitas extraordinárias das transferências de jogadores e pela participação europeia. Um exercício positivo, suportado em grande medida por receitas extraordinárias, não significa que estejam resolvidos problemas estruturais de dezenas de milhões de euros.
É aqui que a prometida transparência ganha importância.
Em 2022, a candidatura liderada por António Miguel Cardoso apresentou-se sob a bandeira do **Mais Vitória**. A transparência era uma das promessas. Quatro anos e duas vitórias eleitorais depois, é difícil reconhecer essa promessa na relação mantida com os sócios.
Não porque as contas não tenham sido apresentadas — foram, embora as semestrais não tenham sido divulgadas — mas porque, demasiadas vezes, falar das contas pareceu servir mais para justificar o que não se fez do que para explicar aquilo que se pretendia fazer.
Agitava-se o “monstro” das dificuldades financeiras e, perante a dimensão dos problemas, quase tudo parecia ficar relativizado: uma decisão menos conseguida, uma opção desportiva discutível ou, sobretudo, a ausência de um projecto suficientemente claro.
As dificuldades financeiras são reais. Mas não podem transformar-se num salvo-conduto para a falta de exigência.
E talvez essa seja uma das consequências mais preocupantes destes últimos anos: fomos instalando uma **cultura de sobrevivência**.
Sobreviver passou a parecer suficiente. E os adeptos, de tanto ouvirem falar das dificuldades, foram-se habituando a exigir menos. Aceitámos resultados medianos, explicações financeiras e a ideia de que, perante a realidade do Vitória, não seria possível pedir muito mais.
É precisamente essa cultura que precisa de mudar.
Rui Rodrigues tem uma responsabilidade acrescida. Não apenas porque é agora o presidente, mas porque fez parte da direção anterior e foi responsável pela área financeira. É, por isso, também corresponsável pelo caminho percorrido nos últimos quatro anos.
Quando afirma que, relativamente à VSports, esta direção avançou mais em 15 dias do que nos quatro anos anteriores, a afirmação é forte, pode metaforicamente representar um “beijo de Judas” e merece ser acompanhada pelos factos. Sobretudo porque a VSports é simultaneamente acionista e um dos principais credores da SAD através de uma sociedade terceira.
Há, por isso, uma nova relação com a VSports que precisa de ser esclarecida. Há uma reestruturação da dívida anunciada. Há propostas em análise. Mas há uma pergunta essencial que continua sem resposta: qual é o modelo financeiro que permitirá ao Vitória deixar de viver permanentemente no limite? E que papel terá a VSports nesse futuro?
Não se exige a esta direção que resolva em semanas problemas acumulados durante anos. Mas também não podemos esquecer que estamos perante uma direção de continuidade e que vários dos seus elementos tiveram responsabilidades na gestão anterior.
Exige-se, por isso, algo muito simples: clareza. Onde estamos? O que mudou? E, sobretudo, para onde vamos?
Rui Rodrigues terá de ter tempo para responder. Mas terá também de perceber que a confiança não se pede apenas: constrói-se com resultados, decisões e transparência.
E talvez seja também tempo de nós, vitorianos, mudarmos.
O Vitória não precisa de adeptos menos críticos. Precisa de adeptos mais exigentes. Porque a exigência não significa estar contra quem dirige. Significa querer mais do clube que amamos.
Pedro Miguel Carvalho