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Palácio de Vila Flor: uma encomenda de um homem singular (parte 2)

Francisco Brito
Opinião \ sábado, agosto 20, 2022
© Direitos reservados
Vila Flor é dos poucos palácios da região que foi construído de raiz a partir de um projecto arquitectónico bem delineado.

Ao contrário de muitas das outras casas nobres da região, o palácio não resulta do aproveitamento de nenhuma estrutura anterior nem do engrandecimento de uma construção pré-existente. É um edifício de planta rectangular e simétrica, em que a parte nobre da casa é no piso térreo, ganhando espaço e dimensão com uma cave e com uma mansarda (ou andar amansardado). No centro do edifício, quer na fachada principal quer na fachada posterior (virada para o jardim), podemos encontrar elementos de aparato e um espaço onde em tempos terão sido colocadas as armas de Tadeu Luiz (entretanto substituídas pelas do Conde de Arrochela, que adquiriu o edifício no século XIX).

Como é sabido o palácio só foi concluído no século XX (pela família Jordão). Contudo, numa gravura de 1747, aparece representado como estando terminado (o que nos faz supor que o autor da gravura terá colhido algum tipo de informação sobre o projecto, que então se encontrava em curso). Também a proporção e a harmonia entre o palácio (completo) e os jardins parece demonstrar que o projecto para Vila Flor era idêntico ao que hoje podemos ver concretizado.

A estas opções arquitetónicas pouco vulgares nesta região e na época, juntam-se os magníficos jardins de Vila Flor, com as suas fontes e recantos, que se distribuem por socalcos, formando autênticas varandas com vista para o burgo vimaranense. E ao longo do palácio encontram-se distribuídas diversas estátuas que representam os reis de Portugal o que neste edifício, do qual se avista o Castelo de Guimarães e o Paço dos Duques de Bragança, assume uma dimensão cenográfica certamente intencional…

O que terá inspirado Tadeu Luiz na construção de Vila Flor? E quem terá contratado para projectar a obra? Não sabemos e, por isso, podemos especular um pouco. Comecemos pelo que parece ser mais complicado. Porquê colocar as estátuas dos reis em torno do palácio? O cenário era certamente convidativo e, uns anos antes da construção de Vila Flor, tinha sido publicada pelo seu colega D. José Barbosa (da Real Academia Portuguesa de História) uma obra intitulada “Elogios dos Reys de Portugal” em que aprecem representados todos os reis de Portugal e que poderá ter servido de inspiração ao fidalgo vimaranense (que apreciava a temática e que terá encontrado em Vila Flor o palco ideal para a materializar). Quanto à tipologia do edifício e implementação no terreno, o mistério adensa-se. No Minho e mesmo em Portugal são poucos os edifícios idênticos a Vila Flor, o que torna improvável que tenha sido um arquitecto com obra na região a dirigir o empreendimento (atrever-me-ia a dizer que não existe nenhuma casa nobre que se lhe assemelhe, mas para isso teria que fazer uma pesquisa mais aturada). Sabemos que Tadeu Luiz era sócio da Academia Dell’Arcadia, em Roma. Será que viajou até Itália ou pela Europa em algum momento da sua vida e que foi aí que encontrou um modelo que replicou em Guimarães? Há um período relativamente longo (entre 1731 e 1743) em que Tadeu Luiz e a sua mulher não têm filhos, o que poderá indicar ausências prolongadas (o casal teve filhos em 1726, 1727, 1728, 1729, 1731 e 1743).  Terá sido inspirado por alguém do círculo do Conde da Ericeira?

Em 1759, já a viver em Vila Flor, mas com a obra ainda por concluir, morre Tadeu Luiz. E com a sua morte adia-se o sonho que foi Vila Flor, concluído quase duzentos anos depois.

Apesar de várias interrogações e dúvidas, sabemos que o palácio de Vila Flor foi uma obra pensada, estudada, desenhada com elegância e bem implementada no terreno. Uma obra única na região, encomendada por um homem singular.

Nota: Este artigo não pretende ser uma investigação histórica. É apenas uma recolha e junção de elementos (em grande parte tratados e publicados por D. Maria Adelaide Pereira de Moraes “Palácio de Vila Flor”). Não posso deixar de agradecer ao Nuno Saavedra, ao Raul Pereira e ao Ricardo Rodrigues pela ajuda prestada para a elaboração deste artigo.

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